OPINIÃO
“Epulìtika”: os perigos da retórica negativa (parte 1)
O uso de termos de línguas latinas ou anglo-saxônicas para nomear realidades sociais no contexto africano tem criado certos equívocos, que acabam por distanciar a palavra do seu real ou etimológico significado. Tal é o caso do termo “política”. Em muitos contextos da etnia Macua, “política”, ou melhor, “epulitika” (em Macua) não é coisa que se aprecie. “Epulitika” tem uma conotação muito negativa, evocando uma astúcia maligna, a capacidade de criar artimanhas para manipular e enganar; “epulitika” é uma subtileza discursiva com intenção maldosa de persuadir, sair avantajado ou então fazer cair alguém numa cilada. Desta forma, um comerciante pode usar “epulitika” para enganar clientes; um filho pode usar “epulitika” para convencer os pais para lhe enviarem dinheiro com urgência; um governante pode servir-se de “epulitika” para levar o povo a acreditar cegamente em suas palavras; um pastor ou shehe ou padre pode usar “epulitika” para convencer os crentes; um juiz pode usar “epulitika” para decidir arbitrariamente que fulano é culpado e sicrano é inocente; um gatuno ou aldrabão pode usar “epulitika” para roubar à luz do dia. Um/a “influencer” ou um/a “youtuber” ou um comentador na TV podem estar bem treinados em “epulitika” para arrebanhar uma legião de seguidores ou simplesmente confundir a opinião pública! Um professor universitário pode adotar a “epulitika” da verboreia, vomitando conceitos e citações, apenas para impressionar e influenciar estudantes incautos! A propria “inteligência artificial” hoje está dotada de tais capacidades que a tornam uma potencial industria de construção de “epulitikas”.
Deste significado negativo de “epulitika”, fica, para já suspeito, nos meios humildes da nossa população quando se deve falar de “política do governo”, “partido político”, “delegado político”, “política nacional” disto ou daquilo.
Ora, o conteúdo e a carga negativa contida no termo “epulitika” parece assemelhar-se aos perigos que a “retórica negativa” pode acarretar nesta era multimedial. Sim. O jovem que se alista nos alshababs, ou que queima o sagrado alcorão em público, provavelmente é vítima duma “retórica religiosa” (“epulitika”); os membros de um partido que vão atacar e violentar os do outro partido seguramente são incitados por uma “retórica política” (“epulitika”); os crentes que acham normal odiar e insultar fieis doutra confissão religiosa provavelmente foram instruídos numa “retórica proselitista” (“epulitika”); as pessoas que correm atras de profetas milagreiros autoproclamados é bem possível que sejam vítimas duma “retórica charlatã” (“epulitika”). No nosso país, períodicamente entramos em campanhas eleitorais. Os políticos profissionais afinam as suas estratégias para atrair pessoas a votarem neles ou – lamentavelmente – para colaborarem em suas falcatruas.
Não podemos, por isso, baixar a guarda perante as retóricas negativas (“epulitika”) que nos chegam de diversas fontes. A retórica diz respeito ao uso que se faz da linguagem (Ezio Raimondi) ), falada, escrita ou, no nosso tempo, da linguagem multimedial. No decurso da história humana, a retórica passou da arte do discurso falado (oralidade) para a arte do discurso escrito. Dos grandes oradores das massas reunidas, o foco passou para os leitores e, posteriormente, para os ouvintes da radiofonia. Hoje, nesta era multimedial e da IA, a retórica encontrou outros recursos: a imagem, o vídeo, o áudio e o virtual, e conquistou novos púlpitos: a televisão, a internet, as redes sociais. Estamos envolvidos por uma linguagem multimedial. O número de mensagens persuasivas é actualmente exponencial, atingindo o público de forma rápida e, por vezes, instantânea. Do uso artificioso da palavra para conseguir certos efeitos, hoje a retórica chegou ao uso técnico de certos efeitos para conseguir determinados resultados: conseguir o consenso do auditório, persuadir a alguém e faze-lo alinhar com o nosso argumento, conquistar credibilidade e confiança de quem nos escuta/vê/lê, mesmo quando o argumento é frágil. Chegamos assim à “retórica publicitária” que vai jogando com o nosso inconsciente, para nos fazer desejar/querer “coisas” sem necessidade.
A retórica pode, portanto, ser considerada fundamentalmente uma técnica e atividade da persuasão, uma actividade eminentemente comunicativa pela qual pretendemos influenciar os outros.
Ocorre, no entanto, distinguir “retórica positiva” da “retórica negativa” (Michel Meyer). Porque, se a beleza da “retórica positiva” deve ser apreciada e admirada, o mesmo não podemos dizer da “retórica negativa”, ou seja, da “epulitika”. A “retórica negativa” (epulitika) funciona como uma “armadilha para o auditório” (Samuel Mateus). Aparece mais empenhada nos propósitos da mera adulação, corrupção ou manipulação, pretendendo fazer passar o verosímil e a opinião pessoal como factos e verdades; visa aproveitar-se e ludibriar os espíritos incautos; ofusca o interlocutor ao oferecer uma visão absoluta e inquestionável da realidade, cega-o com o deslumbre de uma veemência que se auto-impõe, e onde o manipulador procura forçar a passagem da sua perspectiva. Consequentemente, a “retórica negativa” (a “epulitika”) parece não poder evitar o uso de expedientes manipulatórios: a manipulação política, a manipulação religiosa e de textos sagrados, o charlatanismo. Desta cascata, a “retórica negativa” (epulitika) desliza, então, para o desinteresse para com a verdade e para com o dever ser das coisas.
O que fazer? Se a retórica faz uso de técnicas e instrumentos multimediais visando mais facilmente atingir o seu fim, então: imperiosa uma redobrada atenção às subtilezas técnicas usadas pelos fautores da “retórica negativa” (epulitika); Capacitar-se a detectar as intenções latentes em cada “epulitika”, há-de ser um compromisso irrenunciável duma verdadeira vida de cidadania; Urge uma “educação ou alfabetização multimedial” para a que sociedade, a juventude e as crianças não sejam vítimas indefesas da “retórica negativa”, ou seja, da “epulitika”.
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