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OPINIÃO

Por onde vem o Makha?

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A metanfetamina, popularmente conhecida como “Makha(sal)”, tornou-se uma das maiores ameaças sociais da atualidade, afetando de forma direta e profunda a juventude urbana e periurbana. O seu impacto já não pode ser tratado como um fenómeno isolado ou passageiro; trata-se de uma crise social, de saúde pública.

Durante anos, outras drogas circularam pela cidade, muitas vezes toleradas ou subestimadas pelas autoridades. Esse contexto criou terreno fértil para o surgimento e a rápida expansão do Makha, uma substância mais barata, mais acessível e com efeitos altamente destrutivos. A sua disseminação não ocorreu por acaso. Ela seguiu rotas, explorou fragilidades institucionais e encontrou espaço num ambiente marcado pela pobreza, desemprego juvenil e ausência de políticas públicas eficazes de prevenção e inclusão social.

É amplamente reconhecido, inclusive por discursos oficiais e relatórios, que Nampula integra corredores de tráfico de drogas. O problema não está apenas nesse reconhecimento, mas na inércia que o acompanha. Saber que existe um corredor e não agir de forma estruturada para o desmantelar equivale a aceitar, por omissão, as consequências que recaem sobre a população. O tráfico de Makha pressupõe organização, logística e proteção. Nenhuma rede dessa natureza sobrevive sem cumplicidades, negligência ou falhas graves nos mecanismos de controlo do Estado.

A juventude surge como o elo mais frágil dessa cadeia. São jovens que abandonam a escola, rompem laços familiares, entram em conflitos com a lei e perdem, precocemente, a capacidade de projetar um futuro. O consumo do Makha não destrói apenas o indivíduo; ele corrói o tecido social, aumenta a criminalidade, fragiliza famílias inteiras e aprofunda o ciclo de exclusão.

Diante deste cenário, a atuação governamental revela-se insuficiente. As respostas continuam pontuais, reativas e, muitas vezes, mais simbólicas do que eficazes. Falta uma estratégia integrada que combine repressão ao tráfico, responsabilização de redes criminosas, prevenção das comunidades, apoio às famílias e reinserção social dos jovens afetados. A ausência dessa abordagem levanta questionamentos legítimos sobre prioridades, vontade política e compromisso real com a juventude.

Importa, igualmente, reconhecer a responsabilidade individual da juventude, sem cair na criminalização simplista. O consumo de drogas é uma escolha, mas essa escolha é fortemente condicionada por contextos sociais adversos, pela falta de oportunidades e pela normalização da impunidade. Exigir disciplina sem oferecer alternativas é uma equação incompleta.

por onde vem o Makha? Enquanto  não  vier a resposta, o Makha continua a circular livremente pelos bairros de Nampula, roubando vidas e futuros. Combater esta realidade requer mais do que declarações públicas, pois exige ação coordenada, transparência, responsabilização e um compromisso inequívoco com a proteção da juventude. Porque um país que permite que os seus jovens sejam destruídos pelas drogas está, na prática, a comprometer o seu próprio amanhã.

 

 

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