OPINIÃO
Excelências, estão a contar com as árvores?
Excelências Senhores decisores, autores de relatórios oficiais, guardiões das estatísticas nacionais e intérpretes autorizados da realidade educativa do país: é imperativo colocar uma questão que, embora ausente dos vossos documentos, soa todos os dias nas zonas rurais e periféricas as 431 escolas destruídas pelas chuvas contemplam as árvores sob as quais o ensino continua a ocorrer?
Recentemente o Estado anunciou que centenas de escolas foram destruídas e espero que tal diagnóstico seja acompanhado de uma leitura honesta das alternativas forçadas que emergem da própria omissão governativa. No entanto, o que se observa no terreno é um sistema educativo que sobrevive fora do papel, amparado por troncos, sombras e galhos, enquanto os relatórios permanecem limpos e organizados.
Excelências, convém dizê-lo com clareza de que as árvores tornaram-se extensões informais do sistema nacional de educação, não por inovação pedagógica, mas por negligência estrutural. São elas que acolhem turmas inteiras, que substituem salas de aula inexistentes, que absorvem o fracasso acumulado de sucessivos planos, estratégias e promessas.
E, no entanto, essas árvores não constam em nenhum inventário oficial. Não são auditadas, não são protegidas, não são consideradas infraestruturas de emergência. Para o Estado, simplesmente não existem. Tal como não existem, aos olhos da planificação central, as crianças pobres que delas dependem para aprender a ler, escrever e contar.
Pergunta-se, portanto, porque quando se fala em escolas destruídas, não contabilizaram também os espaços improvisados que o povo criou para não abandonar completamente o ensino? Ou o Estado limita-se a contar paredes, ignorando deliberadamente os corpos infantis que continuam sentados no chão, expostos ao sol, à chuva e à humilhação?
É necessário afirmar que não é a chuva que destrói escolas, mas é a fragilidade das construções resultante de anos de desinvestimento, corrupção tolerada e prioridades invertidas. A chuva apenas acelera o colapso do que já estava condenado. E quando esse colapso ocorre, o Estado recua; o povo adapta-se.
Excelências, há um dado ainda mais alarmante que os vossos relatórios não enfrentam: as árvores que hoje funcionam como salas de aula também estão sob ameaça. São derrubadas, queimadas, enfraquecidas pelo próprio abandono ambiental. Alguém avaliou o impacto disso na continuidade mínima do ensino? Alguém se deu ao trabalho de perceber que, ao perder essas árvores, perde-se também o último abrigo educativo de milhares de crianças?
Se ao menos essa realidade fosse reconhecida, poder-se-ia, com honestidade mínima, mobilizar comunidades para o plantio consciente de árvores como medida provisória de proteção social e educativa. Mas nem isso se assume, porque reconhecer as árvores seria reconhecer o fracasso do Estado. E esse reconhecimento, ao que parece, continua a ser politicamente inconveniente.
O que se vê, Excelências, é a perpetuação de um modelo em que o sofrimento dos pobres não gera urgência, apenas estatística; não gera ação, apenas relatórios; não gera vergonha, apenas discursos.
Por isso, a pergunta permanece: as 431 escolas destruídas pelas chuvas incluem, sim ou não, as árvores que hoje sustentam o ensino dos filhos dos pobres?
Enquanto essa resposta não existir, todo relatório será incompleto e toda política educativa continuará a ser escrita longe demais das sombras onde o país ainda tenta aprender.
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