OPINIÃO
Se Eu morrer, por favor, contem tudo de Mim…
Se eu morrer, por favor, contem tudo de mim. Não escondam as dores nem embelezem as minhas falhas. Não digam apenas que fui bom, nem façam discursos falsamente doces só para agradar os ouvidos de quem fica. Não me pintem como santo, nem me apaguem como se eu nunca tivesse existido.
Falem da minha inquietação. Da forma como me revoltei com as injustiças, como gritei contra o silêncio dos poderosos e me recusei a aceitar o sofrimento como normal. Contem como perdi noites a escrever a dor dos outros, a descrever guerras que não eram minhas, mas que me feriam como se fossem. Contem como fiz do papel a minha trincheira e da caneta a minha arma.
Se eu morrer, contem das vezes que chorei em segredo, por não conseguir mudar o mundo com as palavras. Das vezes que me senti pequeno diante da fome de uma criança ou do olhar vazio de um idoso abandonado. Contem como tentei, mesmo sem forças, continuar a escrever, a denunciar, a despertar.
Se eu morrer, contem também dos meus erros. Das vezes que me calei quando devia ter falado. Das hesitações, das dúvidas, das escolhas erradas. Mas digam também que, mesmo falhando, eu nunca deixei de acreditar que a verdade tem valor. Que a justiça não é um luxo, mas um direito. Que o amor pelo povo é mais nobre do que o medo dos senhores.
Contem das cartas que nunca enviei, dos textos que ninguém leu, das lutas que travei no anonimato. Contem que fui humano, e por isso frágil. Mas que tentei ser justo. Que tentei ser luz num tempo de escuridão.
Se eu morrer, por favor, contem tudo de mim… até as partes que magoam. Até os silêncios. Até os sonhos que não cheguei a realizar. Porque talvez, ao contarem a minha história sem filtros, alguém entenda que viver com verdade, ainda que doa, vale a pena.
E se alguma lágrima cair enquanto me lêem, não a limpem depressa. Deixem-na cair como quem deixa flores sobre um túmulo. Porque quem escreve os acontecimentos do mundo, também merece ser escrito. Também merece ser lembrado.
E se, no fim, alguém disser: “Ele tentou”, isso já me será suficiente.
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