Connect with us

OPINIÃO

Sr. Ministro, vá você tomar o paracetamol!

Publicado há

aos

Há dias, o ministro da Saúde de Moçambique, Ussene Isse, teve a ousadia de aconselhar os profissionais de saúde a “recomendarem medicamentos alternativos” quando não houver os fármacos prescritos. Disse ele, de forma quase cínica, que, ao invés de dizer ao doente que não há, se diga que há uma alternativa, e que o médico troque a receita.

Não, senhor ministro. Não é isso que o povo quer ouvir. O povo quer medicamentos. Quer hospitais com condições. Quer dignidade.

Porque o que está a acontecer em Moçambique não é uma simples “falta pontual de fentanil”, como tentou suavizar durante a visita ao Hospital Geral José Macamo. O que há é uma ruina silencioso do sistema de saúde, mascarado por discursos mansos e soluções improvisadas.

Vamos falar a verdade. Com nome. Com lugar.

Em Nampula, por exemplo, o Hospital 25 de Setembro  uma das preferências  da cidade não tem sequer aparelho de medir a tensão arterial. As enfermeiras improvisam com aparelhos pessoais, comprados com o pouco que ganham. Luvas? Kkkkkk Muitas vezes, só se for aquelas usadas e lavadas com água e sal. E se o paciente tiver sorte. Porque muitas vezes, nem isso.

E as luzes nos corredores? Apagadas. Não é força de expressão, é realidade. Literalmente, os pacientes e acompanhantes andam no escuro. E não estamos a falar de um posto de saúde remoto no mato. Estamos a falar de um hospital que esta no coração de Nampula.

Faltam luvas, faltam seringas, faltam anestésicos, faltam médicos com condições, faltam camas, falta limpeza, falta tudo. O que sobra é improviso, sofrimento e paciência. Porque o povo é sempre chamado a ter paciência. Como se paciência curasse.

Mas o cúmulo da irresponsabilidade é o governante vir a público e tentar normalizar o anormal. A falta de medicamentos não é caso para sugestões alternativas, é caso de vergonha nacional. Num país onde milhões são gastos em viaturas de luxo, em subsídios parlamentares, em festas oficiais, como é que se admite que um hospital não tenha medicamentos básicos?

Senhor Ministro, vá fazer uma visita surpresa, sem câmaras, ao Hospital de Marrere. Ou ao de Anchilo. Pergunte a uma mãe que lá chega com a criança a arder em febre e é mandada para casa porque não há metamizol nem paracetamol. Veja com os seus próprios olhos os lençóis rotos, as casas de banho entupidas, os técnicos exaustos a atender três turnos seguidos.

É fácil dar entrevistas em Maputo, rodeado de seguranças. Difícil é enfrentar a verdade nos corredores sombrios dos hospitais provinciais.

E enquanto isso, vós os que mandam continuam a tratar-se em clínicas privadas com ar-condicionado, medicamentos importados e médicos disponíveis ao toque de um telefone. Vocês não tomam “alternativas”. Vocês têm o que há de melhor. É por isso que a vossa empatia é falsa. O vosso discurso é vazio. E a vossa liderança, cruel.

Os profissionais de saúde não precisam de ordens teóricas. Precisam de recursos. O povo moçambicano não precisa de “alternativas criativas”. Precisa de dignidade no atendimento. Precisa de saber que, ao chegar a um hospital, vai encontrar um remédio não um panfleto político.

A saúde está doente. O sistema apodrece. E os discursos de conforto já não colam.

Sr. Ministro, quando faltar anestesia, não peça ao médico que troque a receita. Peça que troquem o governo. Porque quem não garante saúde ao seu povo, não merece mandar. Ponto.

Ser pobre não é defeito

Continue Lendo
Clique para comentar

Leave a Reply

O seu endereço de email não será publicado. Campos obrigatórios marcados com *

Mais Lidas