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OPINIÃO

Pátria bela dos que ousaram lutar

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Há palavras que não se cantam apenas, gravam-se na pele, alojam-se no sangue e tornam-se pulsar colectivo. O hino nacional, Pátria Amada, é uma dessas palavras. Cada verso é um eco de trincheiras, um suspiro de mães que enterraram filhos, um brado de camponeses que empunharam a enxada como lança. Não é apenas um símbolo do Estado: é o testamento de um povo que ousou erguer-se, de rosto nu, diante das balas do império. E nesta leitura poética e crítica, revisitamos esse hino como quem retorna a um altar de promessas, não para o idolatrar, mas para dele extrair as lições esquecidas e os desafios por cumprir, na pátria bela dos que ousaram lutar.

“Na memória de África e do mundo” — não é apenas um verso geográfico; é uma afirmação de pertença e responsabilidade. Moçambique inscreve-se na memória de um continente ultrajado, mas também resistente. Está presente na memória do mundo, não como nota de rodapé, mas como testemunho da colonialidade e, sobretudo, como protagonista de uma libertação que não foi apenas sua, mas do sul global inteiro. Esta memória, no entanto, não é estática, é chamada à acção. Cabe-nos mantê-la viva, não apenas com palavras, mas com gestos concretos de justiça, soberania e dignidade.

“A pátria amada canta a glória do passado” — mas cantar a glória é também confrontá-la. A fundação de Moçambique foi feita entre estilhaços e promessas, entre fogueiras e lutas. A glória habita o sacrifício dos mártires, a solidariedade das aldeias, a coragem dos anónimos. Mas será que a pátria ainda canta, ou apenas murmura, entorpecida pela desilusão? A glória do passado só se honra se o presente não for sua negação. A melhor homenagem aos heróis não está nas praças, mas na superação das carências que ainda corroem o povo por quem eles tombaram.

“Os heróis moçambicanos do Rovuma ao Maputo” — a geografia da unidade que o hino desenha é bela, mas desafia a realidade. O centro e o norte do país continuam, tantas vezes, a ser periferias políticas e sociais, esquecidas quando não são teatro de guerras e deslocamentos. O que diria o hino sobre Cabo Delgado? Sobre as salas de aula vazias em Tete ou Niassa, Zambézia ou Nampula? Ainda somos “um só povo”, como afirma o verso, ou vivemos fragmentados entre promessas urbanas e silêncios rurais? Os heróis legaram-nos a esperança. Mas cabe aos vivos resgatar-lhe o sentido, entre os ideais de ontem e as contradições de hoje.

“Para lutar pela liberdade” — este é o coração do hino. Liberdade: palavra bela e perigosa. Inspirou lutas, mas pode ser esvaziada. Que liberdade temos hoje? A de falar, mas com receio? A de votar, mas sem confiança? A de viver, mas entre bairros sem água, hospitais sem remédio, escolas sem giz? Lutou-se, sim, pela liberdade. Mas liberdade sem equidade é miragem. Hoje, a pátria bela dos que ousaram lutar exige novas batalhas: contra a desigualdade, a exclusão, o silêncio imposto pela fome e pela má governação.

“Todos por um, desafiando canhões” — há aqui uma exaltação da união que, se ontem era concreta, hoje parece cada vez mais simbólica. “Todos por um”: ideal nobre, mas continuamente desmentido por práticas que fragmentam. Se outrora o inimigo era visível e estrangeiro, hoje os “canhões” são internos e disfarçados: a corrupção, o clientelismo, o nepotismo. A luta tornou-se mais complexa, e por isso exige uma cidadania crítica. Não basta ser patriota de cerimónia. É preciso ser vigilante, fiscal do bem comum, criador de alternativas.

“Viva, viva, Moçambique, nossa terra gloriosa!” — o grito de amor à pátria é real, mas não pode ser incondicional. Gloriosa pelo que já resistiu, sim. Mas também pelo povo que todos os dias se reinventa. No entanto, será que esse povo é tratado com a dignidade que a glória impõe? Governa-se Moçambique com amor? Ou apenas se administra o país para os mesmos de sempre? Uma terra gloriosa não pode continuar a ser fonte de sofrimento para os seus filhos.

“A bandeira erguida com o suor dos heróis brilha gloriosamente nas mãos do povo”, metáfora poderosa, mas perigosa se tomada como garantida. A bandeira é símbolo de pertença, de conquista. Mas está mesmo nas mãos do povo? Ou foi tomada por interesses que a usam como escudo, mas não como símbolo de justiça? Resgatar o hino é também devolver a bandeira ao povo. Torná-la novamente aquilo que deveria ser: compromisso, não ornamento.

“Que o povo unido do Rovuma ao Maputo nunca tema lutar contra as armas do inimigo”, e aqui o hino transforma-se em imperativo ético. O inimigo de hoje já não usa farda. Veste a pele da desigualdade, da alienação, da ignorância, do medo. A luta agora é mais silenciosa, mas não menos brutal. Lutar contra ela é educar-se, mobilizar-se, resistir. É recusar a normalização da injustiça. A pátria bela dos que ousaram lutar não pode ser apenas herança, tem de ser construção viva e presente.

O hino nacional é espelho. E, como todo espelho, nem sempre agrada. Mostra feridas, expõe falhas, incomoda. Mas também inspira. Recorda-nos que não somos um acaso da geografia, mas uma escolha da história. Que viemos de um passado heróico, e por isso mesmo não devemos aceitar um presente medíocre. Cantar o hino não pode ser gesto automático. Deve ser compromisso diário. E lutar pela pátria é garantir que ela seja bela não só para os que ousaram libertá-la, mas também, e sobretudo, para os que ousam viver nela com dignidade. E mais não disse!

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