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OPINIÃO

A falta de emprego e a cadeira vazia

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A cada dia, no país dos resilientes, acorda-se cedo, mesmo sem para onde ir. O corpo já mantém o hábito e a habilidade de correr atrás daquilo que não quer ser encontrado, mas o destino tem os seus meios de dizer isso. A falta de emprego tem esse efeito estranho: ocupa todos os pensamentos e, ainda assim, deixa o dia vazio, sem preencher alguma lacuna. A cadeira fica ali, vazia, encostada na parede, esperando um uniforme que nunca vem.

Currículos circulam como garrafas no mar, boiando à vista de todos. Alguns nunca chegam a lugar nenhum; outros chegam e são ignorados em silêncio educado. “Ligaremos”, dizem. E não ligam. Há situações em que, para se conseguir uma certa vaga de trabalho, por mais que seja um salário que sirva apenas para alimentação, exigem-se valores extremamente altos, que podem levar um ano de trabalho para recuperar o valor da “cunha”. Se tiver sorte, ligam e fazem-te esperar tanto que o tempo passa e a esperança aprende a sentar-se para não cansar de tanto ficar em pé. Não é preguiça, nunca foi. É ausência de oportunidade.

Há gente preparada, licenciados e doutorados cheios de vontade, mas sem porta aberta, sem chance para demonstrar o seu conhecimento. A cidade cresce, os discursos crescem, mas as vagas continuam pequenas, insuficientes. Temos profissionais preparados e treinados e lugares que, de facto, precisam de profissionais, mas há um porém: se não trazes contigo 100, 150 ou 200 mil meticais para uma vaga, por mais que tentes remeter os teus documentos, não terás sucesso. As vagas são disputadas como água em tempo de seca. Se alguém mal consegue alimentar a sua família, como terá capacidade de arranjar e disponibilizar 150 mil meticais em menos de 30 dias para conseguir a vaga anunciada na televisão ou na rádio?

A falta de emprego não pesa só no bolso. Pesa na autoestima, nas relações, no coração e no olhar de quem quer trabalhar e não consegue, por falta de honestidade e humanidade dos departamentos de Recursos Humanos de muitas empresas e, principalmente, do aparelho do Estado. Cada dia que passa à procura de uma oportunidade sem resposta é uma pergunta sem voz: até quando?

E, ainda assim, depois de todos esses processos, insiste-se. Porque desistir custa mais caro do que persistir. Não se desiste quando se tem uma família sob a sua responsabilidade, quando as crianças não percebem que foste à procura de oportunidades e não conseguiste porque o empregador pediu justamente aquilo que estás à procura.

Há pouco tempo, foram anunciados 18 mil funcionários fantasmas. Porque não usar essas vagas já disponíveis para alocar pelo menos 10 mil novos recrutas? Mas o silêncio tomou conta e não se diz nada. O emprego muda e dignifica um homem. Os RH deviam saber que a conduta define um homem, assim como o emprego transforma vidas.

Enquanto houver gente disposta a trabalhar e um país que precisa de ser construído, a cadeira não deveria ficar vazia. O problema não é falta de gente; é falta de oportunidade, honestidade e humildade.

 

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