OPINIÃO
Religião em reflexão ou reflexão sobre a religião no âmbito da secularização
O diagnóstico sobre o devir das Religiões tem sido objecto de vários debates. Para o sociólogo Thomas Luckmann (1987), secularização consiste num duplo processo de declínio das religiões institucionais e de generalização das funções religiosas nas sociedades. Porém, para ele, é através da Religião, que faz parte da humanidade intrínseca dos seres humanos, que se consegue transcender a sua natureza biológica. Nesta perspectiva, existe uma função antropológica da Religião que consiste em moldar os seres humanos para fazer deles pessoas humanas, o que permite, deste modo, socializá-las. Neste sentido, pode-se dizer que esta função religiosa, que constitui a própria essência humana, não pode desaparecer. Nesta lógica, secularização consiste, num processo de generalização das funções antropológicas do religioso numa “Religião invisível”, difusa e não especializada.
Contradizendo estas definições funcionalistas da Religião, os defensores das definições substantivas propõem entender a Religião através dos seus conteúdos, e não pelas suas funções sociais. Tal é o caso do sociólogo Peter Berger (2001), para quem a Religião é um “empreendimento humano que criou um cosmo sagrado”, que se inscreve nas realidades sociais objectivas (instituições, práticas, papéis, identidades…) que se impõem a cada indivíduo e lhe conferem uma visão de um mundo ordenado. Para os “substantivistas” da Religião, secularização significa, por conseguinte, o fim ou a marginalização da Religião.
Todavia, pode-se dizer que vivemos, hoje, num mundo moderno, numa sociedade líquida (Bauman, 2003), atravessada por processos complexos e multidimensionais de secularização e do devir das Religiões, apresentando formas diferenciadas, sobretudo olhando para os Novos Movimentos Religiosos. No cômputo geral, em termos simbólicos, as pessoas dispõem de recursos diversificados, embora mais associados aos valores humanistas. Muitos crentes, sobretudo no Ocidente, frequentemente, enveredam por um processo de vivência religiosa fragmentada, implicando a possibilidade de escolha deste elemento e a subtração daquele, por exemplo, entre o não recurso ao casamento religioso para formar família e o pedido do baptismo para os filhos, ainda crianças. Todavia, o cenário contrário verifica-se no Sul Global, sobretudo em África, onde é comum o sincretismo religioso (entre religiões clássicas e as tradicionais ou mesmo as emergentes), na busca da salvação e/ou da prosperidade (“religiões de prosperidade”).
Tais ocorrências levam-nos a concluir o facto em desenvolvimento de crenças heterodoxas, na actualidade. Por exemplo, o linguista e professor universitário Yves Lambert (1992) sublinha a importância de várias atitudes que tem vido a fazer sistema: uma “individualização” segundo a qual cada indivíduo define as suas próprias crenças; um “mundanismo”, que se traduz pela reorientação da religião ao serviço da realização terrestre; o “relativismo” e o “probabilismo”, levando a não ver na religião o único modo de crer, do possível e do provável; o “pragmatismo” e o “subjectivismo”, em virtude dos quais é o objecto de crença o que confere sentido, e tem sentido o que permite viver a realização pessoal como bem supremo e a experiência pessoal como guia soberano; o “axiologismo”, o facto de que são os valores que constituem a forma dominante das referências. A adesão a estes valores é mais forte do que a adesão às referências religiosas ou ideológicas. Aliás, estes valores podem ter, ou têm, um sentido religioso aos olhos dos crentes. Portanto, parece que ainda vale dizer que, “extra ecclesiam/fidem nulla salus”, no sentido de que, fora da “Igreja”/crença/fé, não há salvação, apesar de se estar a vir na era da secularização ou do secularismo.
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