OPINIÃO
Divórcio: um mal necessário
O casamento é uma união voluntária entre duas pessoas, com o objetivo de constituir uma família, baseada num vínculo de afeto e comunhão de vida, ou construção de valores morais com fins de afinidade, alívio das necessidades biológicas de ambos e necessidades emocionais que juntam duas ou mais famílias pelo menos ato.
Mas esquecem-se de que até as obras mais sólidas podem sofrer erosão. Há um momento em que viver juntos é uma dádiva divina e um prazer absoluto, quando a estrutura protege cada centímetro da relação. Pois, quando um decide virar os olhos e a atenção para outro lado, com o objetivo de ser infiel à sua promessa no altar, a estrutura começa a desmoronar. Existem momentos em que o teto já não abriga, apenas pesa. É nesse ponto, onde o silêncio e os choros na mesa de jantar gritam mais alto que qualquer discussão, que o divórcio deixa de ser uma tragédia para se tornar um ato de misericórdia.
Falar do divórcio como um “mal necessário” é, antes de tudo, uma questão de coragem. Vivemos numa cultura que santifica a permanência, mesmo quando ela é feita de mármore frio. Fomos ensinados que desistir é um pecado, mas raramente nos ensinam que insistir no erro é cometer outro erro e é um sacrifício inútil. O divórcio não é o fracasso do amor; o amor, muitas vezes, já morreu meses ou anos antes da assinatura do papel ou das decisões, por falta de respeito, carinho e atenção. O divórcio é o reconhecimento oficial de que a vida precisa de continuar, mas cada um no seu rumo.
Imagine dois rios que, por um tempo, correram juntos. Criaram margens comuns, refletiram o mesmo sol. Mas a geografia da vida muda. Um rio quer a montanha, o outro busca a planície. Forçá-los a manter o mesmo leito é criar uma inundação de amargura. Separar as águas não é um ato de destruição; é permitir que cada um recupere o seu curso natural, a sua própria velocidade.
É claro que há dor. O divórcio corta a carne, desarruma a estante, confunde o calendário das crianças e obriga a uma partilha de colheres e de memórias. É um mal porque quebra a rotina do conhecido. Mas é necessário porque o casamento de fachada é um mal muito maior. Não há nada mais solitário do que estar acompanhado por alguém que já não nos vê. Não há nada mais pedagógico para os filhos do que verem pais que, embora separados, recuperaram o brilho nos olhos, em vez de verem adultos que se toleram num teatro de sombras.
O divórcio é o ponto final que permite o início de um novo parágrafo. É a admissão de que somos humanos, mutáveis e, acima de tudo, merecedores de paz. Às vezes, para salvar a dignidade de dois indivíduos, é preciso sacrificar a entidade casal.
No fim das contas, a assinatura naquele documento não é apenas o fim de um contrato. Para muitos, é o primeiro fôlego profundo depois de muito tempo debaixo de água. É a prova de que, se o para sempre não foi possível, o daqui para a frente ainda pode ser extraordinário.
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