OPINIÃO
O dom que nos torna responsáveis diante de Deus
Entre todos os dons concedidos ao ser humano, poucos são tão sublimes e, ao mesmo tempo, tão exigentes quanto o livre-arbítrio. Não é apenas a capacidade de escolher entre o bem e o mal; é o selo da dignidade humana, a assinatura divina gravada na consciência de cada pessoa. Sem livre-arbítrio não haveria amor verdadeiro, nem fé autêntica, nem pecado, nem santidade. Haveria apenas programação.
Desde as primeiras páginas do livro do Gênesis, o ser humano é apresentado como criatura dotada de liberdade. Colocado no jardim, recebe uma ordem e, com ela, a possibilidade de obedecer ou desobedecer. Deus poderia ter criado autómatos espirituais, incapazes de errar. Mas preferiu criar filhos livres, ainda que essa liberdade trouxesse o risco da queda. O drama do Éden não é apenas a história de uma desobediência; é a confirmação de que o homem é responsável pelos seus atos.
O livre-arbítrio, não é independência absoluta. Não significa que o ser humano seja soberano como Deus. Significa, antes, que ele participa da liberdade divina de maneira limitada e responsável. Somos livres, mas não somos criadores da verdade. Podemos escolher, mas não podemos mudar as consequências das escolhas. Esta é a tensão permanente da existência humana: liberdade e responsabilidade caminham juntas.
Ao longo da história da Igreja, o tema provocou debates intensos. No século V, Agostinho de Hipona defendeu que o homem possui livre-arbítrio, mas que a graça divina é indispensável para que essa liberdade se oriente para o bem. Para ele, a liberdade não é anulada pela graça; é curada por ela. O pecado enfraquece a vontade, mas não a destrói. A graça restaura o que foi ferido.
Séculos depois, Tomás de Aquino aprofundou essa reflexão, ensinando que a liberdade humana é racional: escolhemos aquilo que julgamos ser um bem. Mesmo quando optamos pelo mal, fazemo-lo porque, de alguma forma, o percebemos como algo desejável. Assim, o erro não está na capacidade de escolher, mas na desordem do coração e da inteligência.
Há quem questione: se Deus sabe tudo, inclusive o que vamos escolher, ainda somos livres? A teologia responde distinguindo conhecimento de determinação. O facto de Deus conhecer antecipadamente nossas decisões não significa que Ele as imponha. O conhecimento divino não anula a liberdade humana; antes, a contempla fora das limitações do tempo. Deus vê o que escolhemos, mas não nos força a escolher.
Não podemos atribuir ao destino ou à vontade divina aquilo que nasce de decisões humanas equivocadas. Sistemas injustos são construídos por escolhas. A omissão diante do mal também é escolha. O silêncio cúmplice é uma forma de exercício negativo da liberdade. Se o mal foi escolhido, o bem também pode ser. Se a sociedade foi ferida por decisões egoístas, pode ser transformada por decisões corajosas. A conversão, tão proclamada no Evangelho, só é possível porque somos livres. Deus convida; não impõe.
A liberdade, porém, não é fazer tudo o que se quer. A verdadeira liberdade é escolher o bem mesmo quando o mal parece mais fácil. É resistir à pressão das maiorias quando estas caminham na direção errada. É permanecer fiel à consciência iluminada pela verdade. Paradoxalmente, quanto mais o ser humano se entrega ao egoísmo, menos livre se torna. Torna-se escravo dos próprios impulsos. O pecado promete autonomia, mas produz dependência.
-
SOCIEDADE4 meses atrásUniRovuma abre inscrições para exames de admissão 2026
-
CULTURA1 ano atrásVictor Maquina faz sua estreia literária com “metamorfoses da terra”
-
SOCIEDADE2 anos atrásIsaura Nyusi é laureada por sua incansável ajuda aos mais necessitados e recebe título de Doutora
-
DESPORTO1 ano atrásReviravolta no Campeonato Provincial de Futebol: Omhipithi FC é promovido ao segundo lugar após nova avaliação
-
OPINIÃO2 anos atrásO homem que só gostava de impala
-
ECONOMIA8 meses atrásGoverno elimina exclusividade na exportação de feijão bóer e impõe comercialização rural exclusiva para moçambicanos
-
POLÍTICA9 meses atrásGoverno de Nampula com nova cara: nove novos administradores e várias movimentações
-
OPINIÃO2 anos atrásDo viés Partidocrático à Democracia (Participativa)
