OPINIÃO
Esse lugar já tem dono
Ninguém avisa oficialmente, mas toda a gente sabe. O concurso é publicado, os prazos são respeitados, os documentos são entregues, as entrevistas acontecem. Tudo certinho. Tudo bonito. Tudo inútil. Porque, antes mesmo de o edital sair, o nome do vencedor já estava escrito não no papel, mas na árvore genealógica.
Nas nossas terras, o nepotismo não é desvio do sistema. É o sistema. Funciona com a precisão de um relógio herdado: passa de mão em mão, sempre dentro da mesma família política. O Estado não contrata, redistribui parentes. E chama isso de confiança institucional.
Há uma encenação bem ensaiada. Primeiro, cria-se a vaga. Depois, constrói-se o perfil “técnico” que, por coincidência divina, encaixa perfeitamente no currículo do sobrinho, da esposa, do primo ou do camarada de infância. Se ainda assim houver concorrentes melhores, ajusta-se o critério.
O cidadão comum entra nesse teatro como figurante. Leva o currículo, veste a melhor roupa, responde às perguntas com seriedade. Do outro lado da mesa, quem entrevista já sabe que aquele esforço é apenas parte do ritual. O vencedor nem sempre aparece às vezes nem mora na cidade. Mas o lugar, esse, já tem dono.
O mais perverso é que ninguém se sente culpado. O político chama isso de estratégia. O nomeado chama de oportunidade. A família chama de orgulho. E o povo aprende a chamar de normal. O escândalo deixou de ser o nepotismo; escandaloso agora é quem reclama.
Um mandato não termina, ele se transfere. Quando um sai, outro entra com o mesmo sobrenome, o mesmo grupo, a mesma lógica. Muda o rosto, mantém-se o esquema. A política vira linhagem.
E não se trata apenas de cargos grandes. O nepotismo infiltra-se nos pequenos lugares: escolas, hospitais, administrações locais, projetos sociais. Onde houver um carimbo e um salário, haverá alguém dizendo: “deixa com a família”. Assim se constrói um Estado fechado, onde a porta gira sempre para os mesmos.
Depois perguntam por que as instituições são fracas. Por que os serviços não funcionam. Por que há gente incompetente em posições-chave. A resposta é simples: porque competência não é requisito, parentesco é. E quando erram, não caem. São protegidos. O erro não custa nada a quem nunca teve de conquistar o lugar.
O nepotismo cria uma elite preguiçosa e um povo cansado. Quem nasce dentro do sistema não aprende a servir. Aprende a mandar. Quem nasce fora aprende a esperar ou a desistir. O país perde talentos não para o estrangeiro apenas, mas para o desencanto.
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