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OPINIÃO

Silêncio que mata: o suicídio juvenil e a urgência de cuidar da mente em Moçambique

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Já refletiu sobre o peso devastador do sofrimento silencioso que cada vez atinge mais jovens à sua volta? Diante da inquietação psicológica, convido a imaginar: que abismos se escondem atrás dos rostos conhecidos quantos, entre nós, caminham presos numa dor para a qual não há linguagem suficiente, nem coragem para o pedido de socorro? O suicídio não é apenas um ato extremo, é o apelo radical do ser humano confrontado com o limite da sua existência e da sua esperança. Cada jovem que sucumbe a esse impulso representa o drama universal da busca de sentido diante do sofrimento. A sintomatologia está fortemente associada a doenças mentais, como a depressão grave, ansiedade intensa, perturbação bipolar, assim como a experiências traumáticas e ao sentimento de não haver saída (MSD Manuais, Portugal, 2025).

Perante a este fenómeno, devemos suspender os juízos rápidos. Não se trata de fraqueza, mas a manifestação última do pedido de auxílio, como quem clama pelo mínimo de significado num mundo que lhe parece vazio. O simples ato de falar expor o sofrimento é um gesto de resistência psicológica ao silêncio que tudo consome. Precisamos de empatia genuína e da humildade de ouvir, pois, quando há diálogo honesto, reacende-se a possibilidade de salvar vidas.

Em Moçambique, a (pérola do Índico), o aumento pavoroso dos suicídios juvenis revela as entesadura entre o sonho e a dura realidade. Custo de vida elevado, promessas que se dissipam, relações quebradas, desemprego, pressões culturais e sociais: cada fator contribui para a erosão da esperança e para a emergência de um vazio existencial. Muitos jovens buscam, sem sucesso, alívio passageiro no álcool ou noutras substâncias, ou enfrentam gravidezes não planeadas. Neste cenário, a busca do sentido confunde-se com tentativas de fuga à dor, intensificando problemas de saúde mental e o risco de exclusão social. Quando faltam cuidados adequados para disposição tão percetível, medicamentos e acompanhamento especializado, as redes de apoio (familiares e comunitárias), tornam-se frágeis. O isolamento instala-se, tal como o perigo iminente dos atos suicidas, e o ciclo em toda esfera social se repete, mostrando o falhanço da sociedade em oferecer pertença e amparo aos seus.

Entre tradição e modernidade: reconectar para salvar

A narrativa do suicídio juvenil em Moçambique atravessa o dilema entre tradição e modernidade. Antes, pais, anciãos, padrinhos e líderes religiosos eram mediadores de conflitos e guardiões dos valores sociais. Hoje, muitos destes processos acabam nos tribunais, nas esquadras ou nos templos proféticos, frequentemente sem a capacidade de acolher a diversidade e a complexidade cultural.

A maneira dos psicólogos sociais, é legítimo perguntar, que valores interioriza um jovem cuja infância se constrói à sombra da autoridade institucional? Não estará na hora de retomar as legítimas mediações comunitárias, honrando a tradição sem, contudo, renegar os avanços civilizacionais e legais? Afinal, é o equilíbrio entre herança ancestral e transformação social que pode devolver às novas gerações um sentido coletivo.

Ignorar o sofrimento é, psicologicamente, abdicar da nossa humanidade coletiva. A ausência de mecanismos de prevenção e intervenção é um paradoxo numa era que se julga de saber científico. O combate ao suicídio juvenil exige uma estratégia colaborativa, multidisciplinar e profundamente humana. O estudo de Ospina-Pinillos et al. (2024) demonstra o valor do planeamento participativo e da modelação sistémica para políticas públicas de prevenção.

No Moçambique atual, urge implementar: Colaboração multidisciplinar (saúde, educação, segurança, líderes comunitários, anciãos, comunicação social);

Promoção da saúde mental e combate ao estigma, restrições ao acesso a meios letais.

Prevenção a vários níveis: primário (resiliência), secundário (deteção precoce) e terciário (apoio aos sobreviventes e famílias).

A regularidade no acompanhamento psicológico e psiquiátrico e o reforço das redes familiares e comunitárias são imperativos ético-sociais: cuidar dos outros é cuidar de si e do sentido comum da vida.

O suicídio juvenil não é mero drama individual: reflete as inúmeras fragilidades sociais, culturais e económicas que, se ignoradas, perpetuam sofrimento e morte. À sociedade famílias, anciãos, profissionais de saúde, líderes religiosos, políticos cabe o dever psicológico (aceitação) e prático de ultrapassar barreiras, construir pontes reais de diálogo verso conforto, empatia e prevenção.

A escuta ativa refere-se à capacidade de ouvir atentamente, com empatia e sem julgamentos, dando espaço à expressão plena do outro, através de gestos, silêncio respeitador e respostas atentas. Implica estar presente tanto física como emocionalmente e validar os sentimentos da pessoa que fala, em vez de interromper ou minimizar o seu sofrimento. No contexto do suicídio, a escuta ativa desempenha um papel fundamental: permite identificar sinais de alerta, prestar acolhimento emocional e construir confiança com quem está vulnerável. Ao praticar a escuta ativa, familiares, amigos e profissionais de saúde contribuem para reduzir o isolamento e oferecem suporte essencial, muitas vezes encorajando a busca por ajuda especializada. O simples ato de ouvir, falar e agir pode salvar vidas, pois abre caminho ao diálogo, à esperança e à possibilidade de intervenção eficaz.

Pense: quantos jovens à sua volta estarão agora em silêncio, invisíveis, à espera de compreensão e apoio moral? Que resposta ética e comunitária podemos oferecer para quebrar este ciclo e promover uma sociedade mais justa, humana e inclusiva? Pois é, salvar um jovem é proteger os valores fundamentais da nossa sociedade, fortalecer a identidade coletiva e reconstruir laços indispensáveis à esperança e à vida.

O futuro de Moçambique depende da nossa coragem de agir, de exigir sistemas e políticas eficazes e de considerar, acima de tudo, cada vida juvenil que merece ser vivida. Para quem se deixa levar pelo ritmo frenético do trabalho e acaba por ignorar o verdadeiro valor de ouvir o outro, deixo um conselho sentido: não permitas que as tarefas do dia a dia te roubem o essencial a escuta ativa. Muitas vezes, é este gesto simples que pode evitar surpresas menos boas entre família e amigos, e fortalecer os laços com quem mais amas.

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