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OPINIÃO

E se o Natal não vier?

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Todos os anos, quando dezembro desponta no calendário, muitos corações moçambicanos começam a bater mais depressa. As ruas enchem-se de música, os mercados fervilham de roupas novas e os “viajantes” regressam às suas terras, carregados de malas e promessas. É o tempo do Natal — o tempo em que alguns acreditam que a vida se resume a uma só estação: a das festas, da bebida, da ostentação e das aparências.

Mas há uma pergunta que raramente se faz: e se o Natal não vier? E se, de repente, o comboio da alegria não chegar, o dinheiro acabar antes do tempo, e as luzes se apagarem antes da meia-noite?

Nas nossas vilas e cidades, é um ritual que se repete. Os que trabalham o ano inteiro, mesmo com pouco, guardam as últimas economias para o “grande momento”. Em dezembro, ninguém quer ficar para trás. Há quem peça empréstimos, quem gaste o salário inteiro em roupas que só se vestem uma vez, em festas que duram uma noite, e em mulheres que desaparecem no amanhecer do novo ano. O Natal, que deveria ser um tempo de partilha, de fé e de reflexão, transforma-se em palco de vaidades e de desperdício.

Nas praias de Nacala, Chocas-Mar, Costa do Sol, Tofo, Ponta de Ouro entre outras, o cenário é o mesmo: homens embriagados de música e cerveja, mulheres em trajes novos e sorrisos comprados, crianças a brincar com foguetes enquanto os adultos brincam com o futuro. E quando janeiro chega, implacável, com as matrículas, os uniformes e os cadernos, a festa acaba e a miséria volta a bater à porta.

O pai que gastou tudo no bar agora não tem como comprar o uniforme do filho. A mãe que trocou o salário por uma peruca importada chora diante da lista de material escolar. E o mesmo homem que alugou um quarto de luxo no hotel para impressionar os amigos, volta à sua casa sem energia elétrica, sem comida e sem esperança.

E se o Natal não vier, o que resta? Resta a conta do arrependimento, o vazio do bolso e o peso da consciência. Resta a vergonha de perceber que o brilho das festas não apaga a escuridão da ignorância financeira. Resta o choro das crianças que não entendem por que razão o pai que gastou em festas não tem dinheiro para o caderno.

Este é o retrato da nossa cultura de consumo inconsciente, uma herança amarga de um tempo em que se acreditava que ter é mais importante do que ser. Vivemos como se a vida acabasse em dezembro, esquecendo que o ano começa em janeiro.

Na cidade de Nampula, é comum ver trabalhadores do sector informal que, durante o mês de dezembro, abandonam os seus mercados para “viajar” a Nacala ou Ilha de Moçambique. Passam uma semana inteira em festas, gastando o lucro acumulado do ano em bebidas e encontros amorosos. Em janeiro, sem reservas, regressam para começar do zero, alguns vendendo os poucos bens que restam para pagar as matrículas dos filhos.

Uma comerciante do Mercado Waresta contou que o marido gasta tanto nas festas de fim de ano que, todos os janeiros, ela é obrigada a pedir dinheiro emprestado às vizinhas para comprar o uniforme das crianças.

O Natal deveria nascer dentro de nós, e não nas nossas garrafas ou carteiras. Celebrar é bom, mas viver é melhor. Quem sabe poupar transforma o Natal em esperança; quem desperdiça transforma a alegria em desgraça. Porque, no fim das contas, o verdadeiro Natal não é o que brilha em dezembro, mas o que permanece quando janeiro chega e a vida continua. E mais não disse!

 

 

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