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OPINIÃO

Com o povo a pé, o futuro não tem combustível

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Diz-se que num bairro de Manica, o chefe do posto decidiu visitar a comunidade para “sentir as preocupações do povo”. Chegou num jipe reluzente, cheio de poeira apenas para parecer humilde, e antes mesmo de estacionar, já estava a prometer:

— “Vamos acelerar o progresso! Ninguém vai ficar para trás!”

A multidão, cansada mas educada, bateu palmas com dois dedos.

Um jovem levantou a mão e perguntou:

— “Senhor chefe, e as estradas? As nossas bicicletas já não têm travões por causa dos buracos!”

O chefe, com ar professoral, respondeu:

— “Estamos a trabalhar. O plano é pôr combustível no futuro!”

Um velho que estava sentado numa pedra murmurou para o neto:

— “Ouviste? Vão pôr gasolina no futuro… mas o presente está a pé, e com os sapatos rotos.”

Nisso, o jipe do chefe tentou sair. Entrou num buraco tão fundo que até os seguranças saíram para empurrar.

O povo riu, e uma senhora gritou:

— “Tá bom assim! O progresso também ficou atolado!”

O velho voltou a falar, entre risos:

— “Quando o governo não tapa buracos, o destino do povo é empurrar!”

Sem dúvidas. Há um ditado antigo que diz: “quem quer chegar longe, prepara bem o caminho”. Mas no nosso país, parece que quem governa prefere prometer chegada sem cuidar da estrada. E, assim, o povo vai ficando para trás, a pé, no meio do pó, do buraco, da espera que nunca mais acaba. Não há combustível para o futuro quando as estradas do presente estão esburacadas e os motores da vontade política estão gripados pela indiferença.

A vida das pessoas está ligada ao asfalto que falta. Uma estrada bem feita não é luxo, é saúde, é educação, é comércio, é tempo de qualidade. Mas aqui, a viagem diária é feita entre o risco e o improviso. Onde devia passar uma ambulância, passa um trator-chapa que quebra mais do que leva. Onde devia fluir o transporte escolar, reina o atraso. Onde o progresso devia acelerar, a lama e a poeira mandam parar.

É doloroso ver comunidades inteiras viverem isoladas porque as vias estão intransitáveis. Caminhar a pé durante horas para chegar ao centro de saúde ou à escola não devia ser normal. Mas tornou-se rotina. E enquanto o povo anda, os discursos correm. Dizem que estamos a melhorar, mas a sola dos nossos sapatos conta outra história. Uma história de negligência e prioridades trocadas.

Gasta-se em coisas que não tocam a vida do cidadão comum. Compra-se frota nova para as instituições públicas e partidárias, mas as vias continuam um tormento. Empurra-se projectos com nomes pomposos, mas o básico, o que transforma o dia a dia: estradas, pontes, transportes dignos, fica para “depois”. E esse depois já tem 50 anos de espera.

O problema não está só no asfalto que falta, mas na visão que falta. Porque quem vê o povo como prioridade não o deixa caminhar a pé enquanto o Estado circula em viaturas de luxo com ar-condicionado. Quem tem compromisso com o desenvolvimento não tapa buraco com areia, mas com planeamento sério, com execução transparente, com orçamento que respeita quem paga impostos.

O nosso país precisa urgentemente de investir no que liga pessoas, não no que as separa. Precisamos de estradas que liguem regiões, corações, oportunidades. Precisamos de uma governação que compreenda que a mobilidade é dignidade. Que uma criança não pode faltar à escola por falta de transporte. Que uma mulher grávida não pode morrer na estrada por falta de acesso rápido ao hospital. Que um comerciante não pode perder a sua mercadoria porque o camião atolou a caminho do mercado.

O país está cansado de ser empurrado com promessas. O futuro precisa de combustível real: investimento nas infraestruturas que servem ao povo. E esse combustível não pode vir só de doadores ou financiamentos externos. Tem que vir da vontade política, da prioridade orçamental, da seriedade na execução.

A verdade é simples e crua: enquanto o povo andar a pé, o país não arranca. Porque o futuro não se constrói só com discursos, constrói-se com betão, com asfalto, com pontes que resistem às chuvas, com estradas que não se desfazem à primeira carrada de promessas.

Moçambique tem pressa. O povo tem urgência. E o tempo da caminhada solitária tem de acabar. Já chega de esperar por vias que nunca chegam. Já chega de tapar buracos com palavras. O caminho para o desenvolvimento não pode continuar interditado. É hora de pôr o povo no centro da rota, e de garantir que o futuro, enfim, tenha combustível para arrancar. E mais não disse!

 

 

 

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