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CULTURA

Três décadas depois, Severino Ngoenha relança obra que continua a interpelar Moçambique

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O filósofo moçambicano Severino Ngoenha voltou a lançar, nesta terça-feira (03), na cidade de Nampula, a segunda edição do livro “Por uma Dimensão Moçambicana da Consciência Histórica”, uma obra publicada originalmente há mais de 30 anos, mas que, segundo o autor, continua a ser inquietantemente actual.

A nova edição, revista e relançada com o apoio da editora Ethale, levanta reflexões profundas sobre os desafios políticos, sociais e éticos que ainda marcam a vida nacional. “Infelizmente, as razões que levaram à edição deste livro – os conflitos, as guerras, a indeterminação em termos de projecto político – continuam a existir. Passaram-se 30 anos e continuamos a enfrentar a guerra e tudo o que ela arrasta: fome, miséria, destruição”, afirmou Ngoenha.

Para o autor, apesar das mudanças no contexto internacional, os problemas estruturais internos persistem. “Quando o livro foi escrito, estávamos na guerra civil que durou 16 anos. Hoje, temos uma guerra no norte do país que já dura mais de cinco anos. As manifestações populares recentes mostram que a insatisfação continua. A problemática de fundo é a mesma: falta-nos um projecto político aglutinador.”

Ngoenha sublinha que não espera mudanças imediatas com a reedição, mas deseja que ela provoque reflexão. “Os livros não estão aqui para fazer mudanças. Não são evangelhos – e mesmo o evangelho, com dois mil anos, ainda não conseguiu mudar os homens. O que espero é que este livro incite as pessoas a reflectirem mais, a pensarem com mais profundidade, e que contribuam para o alargamento do debate nacional.”

A escolha da Ethale como editora foi estratégica e simbólica. “O Jessemusse Cacinda aqui de Nampula foi quem sugeriu a reedição e eu aceitei. A Ethale é uma excelente editora. Sempre que posso trabalhar com moçambicanos e com jovens, eu faço isso. Temos propostas para publicar no Brasil, mas os livros ficam caros e menos acessíveis. Se queremos que o livro seja lido, precisamos garantir preços baixos e boa distribuição local.”

Ngoenha considera que o interesse local pela reedição demonstra a relevância contínua da obra. “Isso mostra que a obra continua a suscitar reflexão e debate dentro da sociedade moçambicana. Quando a necessidade de publicar vem do espírito local, é porque ela responde a questões reais e urgentes.”

Sobre a possibilidade de levar a obra a outras províncias, foi pragmático: “Já o apresentei em Maputo, agora em Nampula. Se eu for a Gaza proximamente, levarei comigo. O importante é que o livro chegue a outros, sirva como ponto de partida para reflexões e contribuições próprias.”

O lançamento atraiu estudantes, académicos e representantes da sociedade civil, todos motivados pela actualidade dos temas abordados. “Por uma Dimensão Moçambicana da Consciência Histórica” reafirma-se, assim, como uma ferramenta de pensamento crítico e um apelo ao compromisso com o presente e o futuro de Moçambique. Daniela Caetano

 

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