OPINIÃO
Seja feita a vontade dos políticos…
Por estas bandas de África, é cada vez mais evidente que a verdadeira força que governa não está nas urnas, nem na vontade do povo. Mas em fim só digo “Seja feita a vontade dos políticos”. É como rezar ao contrário. Porque, quando a vontade dos políticos é feita, quase nunca é feita a vontade do povo. E assim seguimos, ajoelhados não diante de Deus, mas diante de gabinetes com portas blindadas e agendas que nunca incluem o cidadão comum.
A vontade dos políticos é curiosa. É imediata, urgente, impaciente. Tem pressa quando se trata de proteger interesses próprios, mas arrasta-se como um velho cansado quando o assunto é corrigir injustiças sociais, melhorar salários dos professores, garantir medicamentos nos hospitais ou simplesmente tapar os buracos que fazem das nossas ruas uma pista de sofrimento diário. Para eles, o tempo é um luxo; para nós, o tempo é uma espera infinita.
Quando convém, a vontade deles se faz sentir com uma velocidade que impressiona. Aprova-se um orçamento para comprar mais viaturas de luxo que ironicamente chamam de “meios de trabalho”. Constrói-se mais um edifício desses que brilham por fora, mas cuja utilidade para o povo é nenhuma. Concedem-se subsídios obscuros, isenções fiscais seletivas, viagens internacionais, ajudas de custo e outras maravilhas. A vontade deles é fértil, criativa, abundante, mas sempre para dentro, nunca para fora.
Enquanto isso, o povo continua às voltas com a realidade dura. Nas escolas, alunos aprendem sentados no chão, mas os dirigentes educativos não têm mãos a medir para inaugurar conferências que só eles compreendem. Nos hospitais, médicos fazem milagres sem material básico, mas as promessas de reformas profundas perdem-se em conferências de imprensa que, na prática, não passam de teatro político.
Mas quando alguém questiona quando o jornalista pergunta, quando o ativista levanta a mão, quando o professor protesta, quando o jovem ousa cobrar aí a vontade dos políticos se torna justiça divina. Sagrada. Intocável. É como se dizer a verdade fosse pecado. Como se pensar fosse crime. Como se exigir direitos fosse uma ameaça a um castelo construído sobre privilégios.
E assim continuamos sob esta reza invertida: “Seja feita a vontade dos políticos”. Eles levantam muros invisíveis entre si e o povo. Criam uma distância que aumenta todos os dias. Falam em democracia, mas praticam a obediência cega. Falam em desenvolvimento, mas cultivam a estagnação. Falam em futuro, mas vivem de manter o passado intacto, sobretudo o passado que lhes garante benefícios.
Enquanto isso, nos bairros, a vida real grita. A água falha. A energia falha. O transporte público mais parece um castigo. O salário nunca chega ao fim do mês. O desemprego transforma sonhos jovens em desespero. A criminalidade cresce, e os culpados são sempre “os outros”, nunca a falta de políticas sérias que enfrentem a raiz dos problemas. Mas a vontade dos políticos permanece intacta. É quase imortal.
Se ao menos a vontade deles coincidisse, um dia que fosse, com a necessidade do povo… Se ao menos o interesse público não fosse tratado como um detalhe inconveniente… Talvez essa frase ganhasse outro brilho. Talvez pudéssemos repetir “seja feita a vontade dos políticos” como quem confia numa autoridade responsável, ética e comprometida. Mas não. Neste país, a vontade dos políticos é quase sempre um caminho sem povo, sem empatia, sem direção.
E o país segue mancando, esperando que um dia alguém tenha coragem de inverter a reza e dizer, com voz firme: seja feita a vontade do povo. Porque só então, talvez, este país encontre o rumo que há décadas lhe é prometido. Porque só então, talvez, a política deixe de ser um privilégio e se torne finalmente aquilo que sempre deveria ser.
Até lá, seguimos vivendo neste mundo onde a vontade dos políticos é lei, onde o cidadão comum é figurante, onde a esperança é empurrada com calendários adiados, relatórios manipulados e discursos que brilham, mas não iluminam.
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