OPINIÃO
A educação em Moçambique: entre o abandono e a influência externa
Saudades dos tempos que lá se foram, quando o Ministério da Educação carregava, de facto, o peso e o orgulho da palavra “Educação”. Tempos em que aprender era um acto de resistência e de amor ao saber, mesmo sem livros, mesmo com recursos limitados. Lembro-me de como líamos o “livro do papá Magaia” mesmo sem letras, apenas decorando e interpretando imagens — um reflexo de uma pedagogia nacionalizada, nascida da realidade moçambicana.
Hoje, infelizmente, a nossa educação parece ter perdido o rumo. Sob pressão dos doadores internacionais, os conteúdos curriculares são cada vez mais impostos do exterior, muitas vezes alheios à nossa cultura, valores e estágio de desenvolvimento. Crianças são obrigadas a aprender sobre temas sensíveis como sexualidade, sem qualquer contextualização adequada nem preparação para lidar com tais conteúdos. A pergunta que se impõe é: *educamos para quem? Para Moçambique ou para agendas externas?
A própria identidade do sector está em crise. Mudam-se nomes como se resolvessem problemas: Ministério da Educação e Cultura, depois do Desenvolvimento Humano, e por aí vai. Mas a crise não está na placa, está nas salas de aula — ou melhor, debaixo de árvores, onde centenas de alunos se aglomeram, sem carteiras, sem materiais, livros com erros, exames são vendidos e muitas vezes sem professores presentes.
E os professores? Sobrecarregados, mal remunerados, com salários em atraso, sem horas extra pagas e sem perspectivas de carreira. Muitos perdem a motivação, e alguns entram para o ensino por falta de alternativas, não por vocação. Isso não é um sistema educativo — é um sistema de sobrevivência.
A educação não pode continuar a ser hipotecada aos interesses de fora, nem ignorada por quem governa. Precisamos urgentemente de um debate nacional sério, honesto e centrado em nossas necessidades, nossas crianças e nosso futuro. A construção de uma nação soberana e digna passa inevitavelmente por uma educação enraizada nos valores, cultura e realidade de Moçambique.
Está na hora de nos definirmos como país. E tudo começa na sala de aula.
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