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OPINIÃO

Riquezas que não alimentam: a zona mineira de Marraca e o Silêncio de Iuluti

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Por: Alexandre Rocha Soares

Os recentes confrontos registados na zona mineira de Marraca lançaram uma sombra de medo e insegurança sobre a população local. Garimpeiros artesanais, que durante anos fizeram do subsolo o seu meio de sobrevivência, evitam agora regressar àquela área, não por falta de vontade de trabalhar, mas por receio de perder a própria vida. Neste contexto, impõe-se uma pergunta incómoda, mas necessária: que benefícios concretos retiram as comunidades de Iuluti, Marraca e zonas circunvizinhas da presença das empresas mineiras que ali operam?

A exploração de pedras preciosas decorre a um ritmo intenso, mas os sinais de desenvolvimento local são, no mínimo, difíceis de encontrar. Quantas pedras seriam necessárias para abrir simples furos de água potável? Quantas toneladas de riqueza subterrânea seriam suficientes para erguer um centro de saúde funcional em Marraca ou para reabilitar as vias de acesso à vila de Iuluti? São perguntas que ecoam nas conversas informais das comunidades, ainda que raramente cheguem ao espaço público.

As condições das infra-estruturas falam por si. As estradas que ligam Nametil-Iuluti, Murrupula e Chalaua tornaram-se praticamente intransitáveis, sobretudo durante a época chuvosa. Pontes ruíram em pontos críticos, como Nacuaho, isolando comunidades inteiras e expondo a fragilidade de um território que, paradoxalmente, assenta sobre recursos de elevado valor económico. A riqueza sai; a lama fica.

Mais perturbador ainda é o facto de os próprios nativos, que tradicionalmente dependem do garimpo artesanal para sobreviver, serem impedidos de explorar os recursos das suas próprias terras — e, em situações extremas, mortos. Enquanto grandes empresas extraem o que o solo oferece, os habitantes locais pagam o preço mais alto: exclusão, criminalização da sobrevivência e um silêncio imposto pelo medo de represálias.

No seio das comunidades, cresce uma consciência crítica, ainda que contida. Pergunta-se, em voz baixa, onde estão os impactos sociais positivos dessas explorações mineiras. Onde estão as escolas, os centros de saúde, a água potável, as estradas transitáveis? Onde está a responsabilidade social que deveria acompanhar qualquer projecto de exploração de recursos naturais?

É legítimo, portanto, que a população exija mais das autoridades e das entidades de fiscalização. O desenvolvimento económico não pode continuar a ser medido apenas em quilates e lucros, enquanto as comunidades permanecem mergulhadas na pobreza, na insegurança e no silêncio forçado. Se a terra de Marraca é rica, Iuluti não pode continuar pobre. Caso contrário, estaremos perante mais um exemplo de riqueza que não alimenta, não cura e não liberta.

 

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