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OPINIÃO

Se no Antigo Testamento foi a cobra e a maçã, hoje é o dinheiro

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No Antigo Testamento, a narrativa da queda do homem é simples na forma como a cobra surge como voz da sedução, a maçã como símbolo do desejo, e o ser humano como alguém que escolhe acreditar numa promessa fácil. Não foi apenas a desobediência que marcou aquele momento, mas a ingenuidade diante de uma tentação bem articulada. A queda começou quando se confundiu limite com privação e liberdade com poder absoluto. Ontem, o engano tinha forma de mito. Hoje, ele veste fatos caros, circula em moedas, notas, cartões e transferências bancárias. Hoje, o grande enganador chama-se dinheiro.

O dinheiro, em si, não é um mal. Nunca foi. Ele nasceu como instrumento de troca, facilitador da vida, organizador das relações económicas. O problema começa quando deixa de servir e passa a mandar. Quando deixa de ser meio e se torna finalidade. Quando ocupa o lugar da ética, da consciência e do bem comum. A partir desse momento, o dinheiro assume o mesmo papel que a cobra no jardim para convencer o ser humano de que tudo é permitido, desde que traga vantagem.

Na sociedade contemporânea, o dinheiro ganhou estatuto de verdade absoluta. Ele valida pessoas, legitima discursos e silencia consciências. Quem o possui é automaticamente tratado como referência, mesmo que não tenha ideias, valores ou mérito. Quem não o tem, carrega o peso da suspeita, da exclusão e do desprezo. Criou-se uma hierarquia social baseada não na dignidade humana, mas na capacidade financeira. Assim, a desigualdade deixou de ser um problema moral para ser encarada como algo natural, quase inevitável.

No espaço público, o dinheiro tornou-se critério de decisão. Define prioridades políticas, orienta políticas públicas e, muitas vezes, determina quem merece ser ouvido. Projetos essenciais ficam esquecidos enquanto interesses privados avançam com celeridade impressionante. O discurso do desenvolvimento é frequentemente usado como cobertura elegante para práticas que aprofundam injustiças. Tal como a cobra, o dinheiro não obriga; ele persuade. Faz parecer razoável aquilo que, no fundo, é eticamente indefensável.

No plano pessoal, o dinheiro também engana com eficiência. Promete segurança, mas gera ansiedade constante. Promete liberdade, mas cria dependência. Promete felicidade, mas raramente ensina contentamento. Muitas relações são construídas ou destruídas à sua volta. Famílias desunem-se, amizades se perdem, princípios são relativizados. Aos poucos, aquilo que antes era inaceitável passa a ser “necessário”, “estratégico” ou “normal”. É assim que o engano se instala não pela força, mas pela repetição.

Vivemos numa era em que o sucesso é medido em números e não em contributos. O valor do ser humano é frequentemente calculado pelo saldo bancário e não pelo impacto positivo que deixa na vida dos outros. O trabalho honesto, paciente e silencioso perde espaço para a pressa de enriquecer, custe o que custar. A ética tornou-se flexível, adaptável às circunstâncias financeiras. E quando a moral se dobra ao dinheiro, a sociedade inteira se curva.

A grande semelhança entre a cobra de ontem e o dinheiro de hoje está na promessa. Ambos prometem mais do que podem cumprir. Ambos sugerem que o ser humano será completo apenas quando ultrapassar limites. Ambos ocultam as consequências. No Éden, a consequência foi a perda da inocência. Hoje, são a corrupção, a injustiça social, a banalização da pobreza e a indiferença diante do sofrimento alheio.

Enquanto continuarmos a tratar o dinheiro como solução para todos os problemas, ele continuará a ser a nossa maior ilusão. Não foi a cobra que destruiu o homem, nem a maçã que o condenou. Foi a escolha. E hoje, mais do que nunca, a escolha continua a ser nossa.

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2 Comments

2 Comments

  1. Geraldo Joel Cuane

    Janeiro 9, 2026 at 1:54 pm

    REFÉNS DE MIM

    De ninguém falo,
    mas de mim, todos falam
    Vida, não tenho
    mas de mim, muitos vivem
    Nada faço
    mas comigo, tudo se faz
    Não sei mandar
    mas comigo, todos mandam
    Não falo nenhuma língua
    mas sobre mim, todas as línguas se falam

    Não sei amar
    mas a mim, muitos adoram
    por mim, muitos amam
    alguns até fingem que amam
    de todos, recebo carícias
    alguns mal me amam
    porque em sítios sórdidos me guardam

    Me amam sim,
    porque em sítios íntimos me guardam
    com muito carinho
    Me amam sim,
    porque ocupo grande parte de corações
    e provoco emoções mais do que o Amor

    Não sei matar
    sou inocente de tudo
    mas por mim, muitos matam
    por mim, muitos roubam
    por mim, quem mata é inocente
    por mim, quem rouba é inocente
    por mim, o inocente é culpado
    por mim, o Juiz vira réu
    e por mim, se faz e desfaz a justiça

    Mudo de rosto
    mudo de formato
    até de tamanho mudo
    Mas não mudo do poder
    mesmo sabendo que nada posso
    De mim, todos dependem
    comigo, muitos atingem o apogeu do poder
    Mas sem mim, nada podem

    Afinal quem sou eu?

    https://www.facebook.com/100001146865926/posts/pfbid0254AodbyVLBAHjyxzHXefjSiEpQnyprBAWVkKQu2DU1CDs53H4mgFhnPMYcyME9wYl/?app=fbl

  2. Ernesto

    Janeiro 16, 2026 at 2:13 pm

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