OPINIÃO
Quando o cabelo deixa de contar quem somos
Basta andar pelas ruas para perceber que alguma coisa se soltou da raiz. Jovens com cortes de galo, desenhos agressivos na cabeça, como se o cabelo fosse campo de batalha. Velhos a andar de careca lisa, não por escolha ritual ou dignidade, mas com ar de luto permanente, como quem perdeu alguém e esqueceu-se de explicar porquê. Crianças com cabelo pintado nas barbearias, cores berrantes, como se estivessem a ir para um convívio sem regras, sem orientação, sem limites.
O problema não é o corte em si. O problema é o vazio que ele revela. O cabelo, na cultura africana, nunca foi apenas estética. Sempre foi linguagem. Falava da idade, do estado civil, da posição social, do respeito próprio.
Cortar o cabelo era acto simbólico, não brincadeira. Hoje, corta-se por imitação, por moda importada, por pressão do grupo. Corta-se sem saber o que se está a dizer com a cabeça.
As barbearias transformaram-se em laboratórios de confusão cultural. Ali entra uma criança e sai um personagem que nem ela sabe explicar. Os pais passam, olham, riem ou fingem que não viram.
A educação ficou sentada à espera em casa, enquanto o Android e o espelho decidem. Depois perguntamos por que os jovens já não escutam, já não respeitam, já não reconhecem limites. Tudo começa nos pequenos gestos que deixámos de orientar.
Há também um cansaço estranho nos mais velhos. Muitos já não afirmam nada. Rapam a cabeça como quem desiste de discutir com o tempo. Não ensinam, não corrigem, não transmitem. E quando os mais velhos se calam, os mais novos fazem barulho. O corte de cabelo vira grito silencioso de identidade perdida.
Não se trata de proibir nem de voltar atrás no tempo. Trata-se de recuperar sentido. Modernidade não é negar quem somos. Estilo não é copiar sem pensar. Um povo que perde os seus símbolos começa a andar sem mapa. E o cabelo, por mais simples que pareça, é um desses sinais que dizem ao mundo de onde vimos e para onde queremos ir.
A pergunta permanece, incómoda e urgente: onde estão os nossos valores? Talvez ainda estejam aí, escondidos debaixo dessas cabeças confusas, à espera de alguém que volte a ensinar que identidade não se pinta, não se raspa à toa, constrói-se com consciência e respeito.
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