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OPINIÃO

E a nós, as nossas regalias?

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Enquanto decretos são assinados, longe da realidade do povo,  do calor das chapas sobrelotadas, o cidadão comum continua a fazer contas impossíveis. Contas de como sobreviver com um salário que não chega ao fim do mês. Contas de como tratar uma doença num hospital. Contas de como educar um filho numa escola sem condições.

Mas, curiosamente, há sempre dinheiro. Sempre há recursos quando o assunto são as regalias dos que já governaram, dos que já tiveram nas mãos o destino de todos. Para esses, o Estado nunca está em crise. Para esses, não há cortes, não há contenção, não há sacrifício nacional.

Dizem-nos que essas regalias são para garantir “dignidade”. Uma palavra bonita. Dignidade. Mas quem decidiu que a dignidade tem destinatários seletivos? Quem escreveu, em algum lugar invisível da nossa Constituição moral, que a dignidade começa no topo e termina antes de chegar ao chão onde pisa o povo?

Porque se dignidade é direito, então ela não pode ser privilégio.

O camponês que acorda antes do sol para cultivar a terra também merece dignidade.

A mãe que vende tomate ao longo da estrada para sustentar os filhos também merece dignidade.

O jovem que termina a universidade e encontra portas fechadas também merece dignidade.

O doente que espera horas num hospital sem atendimento também merece dignidade.

Mas para esses, o discurso muda. Para esses, fala-se de “limitações orçamentais”. Fala-se de “desafios estruturais”. Fala-se de “gradualismo”. Palavras sofisticadas que, na prática, significam a mesma coisa: esperar indefinidamente.

É curioso como o Estado se torna ágil quando se trata de proteger quem já esteve no poder, mas lento, quase imóvel, quando se trata de servir quem nunca saiu da base.

E não se trata aqui de negar respeito aos antigos chefes de Estado. Não se trata de desvalorizar o cargo que ocuparam. Trata-se de questionar a medida, o equilíbrio, o senso de justiça. Trata-se de perguntar se o país que somos hoje pode sustentar esse nível de generosidade para uns, enquanto exige sobrevivência heroica de outros.

Quando um cidadão olha para o Estado e já não se reconhece nele, algo está profundamente errado. Quando as decisões parecem distantes da realidade vivida pela maioria, o contrato social começa a rachar. E quando esse contrato racha, não há decreto que consiga sustentar a legitimidade.

Porque, no fim das contas, o povo não pede muito. Pede apenas aquilo que lhe foi prometido desde a independência: um país onde todos tenham lugar, onde todos tenham voz, onde todos tenham direito a viver  não apenas a sobreviver.

Se há dinheiro para garantir conforto eterno a quem já governou, então deve haver coragem para garantir condições mínimas a quem continua a sustentar este país todos os dias.

Caso contrário, estaremos apenas a institucionalizar a desigualdade. A legalizar o abismo. A normalizar o inaceitável.

 

 

 

 

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