OPINIÃO
O medo quando a farda se torna disfarce
Chegamos ao ponto mais sombrio da nossa jornada social, aquela em que o cidadão, ao ver uma patrulha se aproximar, sente o mesmo calafrio que sentiria diante de um grupo de assaltantes encapuzados. O cenário é de um cinismo cortante, Nas esquinas, onde o cidadão deveria buscar refúgio, encontra o olhar de rapina de quem deveria servir. A farda, outrora símbolo de autoridade e ordem, tornou-se, em muitos casos, um disfarce para a sobrevivência marginal. A linha que separa o protetor do predador tornou-se tão ténue que já não se distingue pelo uniforme, mas apenas pelo tipo de abordagem. Hoje, o povo vive num estado de “salve-se quem puder”, perguntando-se em quem confiar quando o “suposto polícia” usa a autoridade para pilhar o que resta do suor do trabalhador.
A crise é profunda e sistémica. Assistimos a um cenário onde agentes da lei, corroídos pelo vício do jogo de azar, apostam a sua honra e o dinheiro alheio em mesas de fortuna. Quando a dívida aperta e a sanidade fraqueja, o desfecho é duplamente trágico: ou a arma do Estado é usada para o crime contra o próximo, ou é virada contra o próprio peito do agente, num ciclo de suicídios que expõe o apodrecimento da saúde mental nas corporações.
Nas ruas, a gasosa deixou de ser um pequeno suborno para se tornar uma extorsão institucionalizada. Multas ilegais são inventadas sob o sol ardente, não para educar o condutor, mas para alimentar o bolso de quem devia dar o exemplo. É a “caça ao homem” em plena via pública. O sentimento de impunidade é tão vasto que o próprio Serviço nacional de Investigação Criminal (SERNIC), em vez de ser o porto seguro da denúncia, torna-se o agente do silenciamento.
Farda, que deveria inspirar confiança e ordem, serviu como um passe livre para a impunidade. Os roubos e sequestros dos estrangeiro não é apenas um crime patrimonial; é uma ferida na hospitalidade de uma nação e um golpe na moral das instituições. A missão de “proteger a população” foi trocada pela conveniência do saque, transformando agentes da lei em figurantes de um pesadelo urbano.
Estamos perante uma polícia que, em muitos casos, mete mais medo do que o próprio crime organizado. Se o ladrão rouba na calada da noite, o mau polícia rouba à luz do dia, amparado pela lei que ele mesmo atraiçoa. Os polícias, por dever e lei, deveriam ser o escudo entre o cidadão e a criminalidade.
um cidadão nigeriano, que escolheu estas terras para erguer o seu sustento e contribuir para a economia local, viu o seu estabelecimento ser invadido. O choque, contudo, não veio apenas da violência do ato, mas da identidade de quem empunhava as armas.
povo já não sabe a quem recorrer. Se chama a polícia para denunciar um assalto, corre o risco de ser assaltado novamente por quem deveria preencher o auto de ocorrência.
Uma nação onde a autoridade se torna sinónimo de ameaça é uma nação que caminha para o caos. É preciso limpar as fileiras, restaurar a dignidade da farda e punir exemplarmente quem usa o poder para extorquir. Sem isso, continuaremos todos — nacionais e estrangeiros — à mercê de quem deveria ser o guarda, mas prefere ser o lobo o cenário torna-se ainda mais sombrio quando o Serviço de Investigação Criminal, o órgão que deveria ser o farol da justiça e da verdade, entra, mas para solicitar o silêncio. Pedir que a vítima se cale, essa estratégia é para não alertar os supostos agentes polícias? Ou na prática, é para tentar apagar o rastro de uma traição institucional? O silêncio forçado é o oxigénio da corrupção; é o véu que cobre a conduta daqueles que desonram o distintivo que carregam.
A quem o cidadão deve recorrer quando o “protetor” é o assaltante? A segurança pública não pode ser um balcão de negócios escusos, e a confiança da população — seja ela nacional ou estrangeira — é o alicerce que se esboroa cada vez que um crime desses é abafado pelas próprias mãos que deveriam investigá-lo.
O fenómeno dos polícias viciados em jogos de azar e apostas desportivas é a nova epidemia silenciosa. Agentes que, na esperança de um lucro rápido que o salário miserável não provê, entregam o que lhes resta de dignidade às máquinas e às “bets”. Quando a sorte — sempre madrasta — lhes vira as costas, o desespero assume formas cruéis. Nas ruas, o policiamento degradou-se para uma forma de “caça fiscal” selvagem. As multas ilegais aplicadas a condutores e comerciantes não visam a ordem pública, mas o enchimento de bolsos particulares. É a polícia que se torna o próprio obstáculo à lei.
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