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Padre Luzias Gonçalves: 57 anos de missão em Moçambique com espírito crítico e memória viva

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“Fui esquecido por quem cresceu nas minhas mãos.”

O Jornal Rigor conversou com o Padre José Luzias Gonçalves, missionário português que há 57 anos se dedica à evangelização e à promoção social em Moçambique. A entrevista decorre num momento simbólico: a Semana Santa e os preparativos para os 50 anos da independência do país — acontecimentos que o entrevistado viveu intensamente e de forma marcante. Com discurso frontal, o sacerdote revisita a sua missão, denuncia o esquecimento institucional, relembra a amizade com o saudoso arcebispo Manuel Vieira Pinto, e defende uma Igreja desclericalizada, feita de participação, proximidade e compromisso com os mais pobres. Esta é uma conversa com um padre que caminha a pé, critica sem medo e vive como pensa.

Jornal Rigor: O que representam para si estes 50 anos de missão em Moçambique, nesta nobre tarefa de evangelizar as comunidades?

Padre José Luzia: Bom, para começar, são 57 anos — e não apenas 50. Passei a maior parte da minha vida em Moçambique. Cheguei ao país ainda antes de ser ordenado padre, nas vésperas da independência. Vivi todas as vicissitudes do fim do colonialismo, coincidindo com a chegada do Bispo Manuel Vieira Pinto — uma figura incontornável na minha vida e na história de Moçambique. Escrevi sobre ele o livro “Manuel Vieira Pinto, o Visionário de Nampula”, onde retracto a sua importância pastoral e o seu impacto político e eclesial.

Celebrar estes 57 anos de missão é, para mim, revisitar a minha própria história. Às vezes, até me esqueço de certos episódios. Caminhar a pé pela cidade, por exemplo, permite-me reencontrar rostos e memórias — algumas marcadas por carinho, outras por esquecimento. Tenho consciência de que há quem me tenha virado costas.

Jornal Rigor: Refere-se a que pessoas, concretamente?

Padre José, Luzia: Refiro-me, sobretudo, aos políticos de Nampula. Muitos deles cresceram comigo ou passaram pelas minhas mãos e hoje ignoram-me por completo. No fim de 57 anos de missão, estar há quase 15 anos à espera da nacionalidade moçambicana é doloroso. Mas a minha ligação com o povo macua é inquestionável. E é por isso que, mesmo sendo praticamente esquecido, continuo aqui.

Jornal Rigor: A que políticos se refere?

Padre José Luzia: É fácil perceber. Todos os políticos relevantes da Frelimo em Nampula passaram pela minha vida. Não preciso de nomeá-los — vocês conhecem-nos.

Jornal Rigor: Que motivos teriam para esse afastamento?

Padre José, Luzia: Nunca me disseram directamente. Limitam-se, com uma honrosa excepção, a evitar-me, a ignorar-me. Alguns, há não muitos anos, ainda enviavam mensagens no Natal ou Ano Novo. Este ano, nenhum. Mas sei o motivo: a minha atitude crítica. Não foi por acaso que fui o primeiro padre a ser expulso depois da independência, em Outubro 1974. Nunca imaginei que o país cuja celebração da independência, aqui em Nampula, animámos com tanta euforia e esperança, chegaria ao caos em que se encontra hoje. Ainda ontem (Domingo de Ramos), houve mais um baleamento de um activista político. Sou crítico, sim. Sempre fui.

 

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