OPINIÃO
O Grande Sumiço: Onde Foi Parar o Órgão do Vizinho?
O norte de Moçambique é uma terra de riquezas: gás natural, rubis, praias de tirar o fôlego, mitos, histórias, entre outros encantos. Mas, nos últimos dias, as províncias de Cabo Delgado e Nampula parecem ter inaugurado uma nova e exótica modalidade de exportação: o desvio de órgãos genitais por via sem fios (Wi-Fi espiritual, se preferirem). Um desaparecimento que merece atenção dos fundadores desta nova modalidade. As pessoas já não andam à vontade e evitam apertos de mão. A nossa rotina está cada vez mais a modificar-se por conta desta situação.
O medo é tão palpável que mulheres em Cabo Delgado chegaram a trancar os maridos em casa para os proteger. No Mercado Central de Pemba, a Polícia teve de intervir para evitar o linchamento de um homem acusado de praticar este suposto feitiço. Nos últimos dias, tocar ou encostar-se a um desconhecido pode ser perigoso, porque a desinformação pode acabar em agressões sem justa causa.
A logística é de uma eficiência que faria inveja a qualquer cirurgião. Não é preciso bisturi, anestesia ou sequer remover as calças. Basta um toque no ombro, um “bom dia” mal-intencionado, e pronto: o sujeito descobre que o seu património reprodutor decidiu tirar férias prolongadas, deixando no lugar um vazio metafísico. Eis a oportunidade perfeita para trocar de órgão ou até de género.
Será isto magia da desmaterialização ou um mito inventado por mulheres para evitar que os maridos saiam para diversão? Em Pemba, o pânico é tanto que a produtividade ameaça cair. Afinal, é difícil concentrar-se no trabalho quando se vive com receio de que o próximo transeunte seja um ladrão de genitais com dedos magnéticos.
Em Nampula, as mulheres, zelosas e pragmáticas, também seguiram o exemplo das irmãs de Cabo Delgado e optaram por “resolver” o problema trancando os maridos em casa. Elas próprias também não se consideram imunes. Preferem proteger o “herói” da família.
É o isolamento profiláctico: se ninguém toca, nada desaparece. Uma medida que, suspeito eu, muitos maridos aceitaram com um sorriso no rosto, sem reclamar, talvez pela primeira vez nas suas vidas. Algumas mulheres aproveitaram a desculpa para evitar visitas à sogra ou o trabalho braçal, e, convenhamos, talvez nem seja uma má ideia.
O mais fascinante é a fé cega na tecnologia do oculto. A Polícia, coitada, tenta explicar a biologia básica, mas quem é a ciência diante de um boato bem espalhado no WhatsApp?
“Ele tocou-me e eu senti um frio. Minutos depois comecei a sentir um calor no fundo e aos poucos ele foi encolhendo”, grita a suposta vítima. E a multidão, armada com pedras e justiça instantânea, não quer saber de exames médicos, nem se aquilo é realmente possível ou se o indivíduo já é idoso. Só quer encontrar o “HD externo” onde o órgão foi armazenado.
O absurdo é que alguns chegam a dizer que preferem a COVID-19, a malária ou qualquer outra praga, porque, comparadas com esta situação, as outras parecem menores. E mesmo assim preferem essas doenças, mas pedem: “não nos tirem o nosso trágico motivo de viver”. Precisamos dele para nos sentirmos humanos e vivos. Sem isso, dizem alguns, já nem serviríamos para ser padres.
Enquanto se caçam feiticeiros imaginários e se lincham idosos por um olhar torto, muitos continuam a verificar, de dois em dois minutos, se “ele” ainda está lá. E os verdadeiros problemas da região — esses que realmente castram a dignidade do povo todos os dias — continuam igualmente presentes em Cabo Delgado e noutras partes do país, bem visíveis diante de todos.
No fim do dia, resta a dúvida: se o órgão desaparece com um toque, será que volta? Qual seria o verdadeiro propósito desta suposta recolha de órgãos? Ou será que, num país onde tanta coisa nos é tirada à força, a imaginação popular decidiu que, para não perder a cabeça, mais vale alimentar o absurdo do que encarar o resto da realidade?
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