OPINIÃO
Nós juramos por ti, ó Moçambique: mas a pátria também tem de jurar pelo seu povo
Há palavras que carregam o peso de uma promessa colectiva. Quando no hino nacional cantamos “nós juramos por ti, ó Moçambique”, não se trata de simples lirismo patriótico. Trata-se de um voto profundo, um acto de entrega e fidelidade, feito por um povo que, ao longo das décadas, mostrou na prática o que significa jurar por uma pátria. O juramento está nos pés descalços dos que marcharam para a liberdade, nas mãos calejadas dos que lavram a terra mesmo sem sementes, nos olhos insistentes dos jovens que, apesar das portas fechadas, continuam a sonhar.
Mas é legítimo perguntar: e a pátria, jura também pelo seu povo? Jura cuidar, proteger, incluir? Jura não esquecer os que ficaram nas margens da história? Ou será que o juramento ficou apenas de um lado, como se o povo tivesse a obrigação eterna de doar-se, sem garantia de retorno?
A pátria, entendida como casa comum, não é só geografia nem só símbolo. É relação viva entre os que governam e os que são governados. É contrato social que deve ser renovado todos os dias com justiça, com escuta, com acções concretas. Não basta repetir que o povo é soberano se, na prática, é ignorado. Não basta evocar a coragem dos heróis se os herdeiros dessa coragem continuam a viver sem dignidade. O juramento que o hino canta precisa sair da poesia e entrar no orçamento, nas políticas públicas, nas decisões estruturais.
Quando um camponês levanta-se de madrugada e enfrenta a seca, ele está a cumprir o seu juramento pela pátria. Quando uma professora atravessa o bairro com o salário em atraso, mas ainda assim ensina com amor, ela está a manter o seu compromisso com Moçambique. Quando uma mãe sozinha alimenta os seus filhos com esforço e esperança, está também ela a honrar a pátria. Mas… e a pátria? Honra-os de volta?
Uma pátria que se diz amada tem de mostrar amor. E amor em política não é discurso, é acção. É garantir que as promessas da independência não se limitem às datas comemorativas. É fazer com que a paz não seja apenas ausência de tiros, mas presença de condições para viver com dignidade. É criar espaços onde o povo possa participar, decidir, construir. O juramento não pode ser unilateral. A nação precisa comprometer-se com os seus cidadãos tanto quanto eles se comprometeram com ela.
A frase “nós juramos por ti” tem força espiritual, emocional e histórica. Mas o tempo exige que ela seja acompanhada por um gesto recíproco: “e eu juro por vós”, devia responder a pátria. Jurar que ninguém será deixado para trás. Que nenhuma região será esquecida. Que nenhuma geração será sacrificada. Que nenhuma esperança será descartada.
Moçambique, tu nasceste do juramento colectivo. Dos que enfrentaram canhões, das mulheres que esconderam combatentes, dos jovens que escreveram panfletos na calada da noite. Mas a tua glória dependerá de como retribuis esse juramento. O povo não pode continuar a viver da sua própria resistência. Precisa também sentir que vale a pena resistir. Que há recompensa na cidadania. Que há futuro na luta.
Portanto, que este verso do hino seja ponte e não muralha. Que seja lembrança do que já foi feito, mas também convocatória do que ainda falta por fazer. Que o juramento não seja apenas passado, mas presente activo. E que, num dia não distante, todos os moçambicanos possam dizer, com alegria e verdade: “nós juramos por ti, ó Moçambique… e tu juraste por nós também”. E mais não disse!
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