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OPINIÃO

Jovens tatuados, avós em dúvida

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As ruas de Maputo, Beira ou Nampula já são galerias vivas. Nos braços, nas pernas, no peito e até no rosto dos jovens, desfilam tatuagens de dragões, frases em inglês, símbolos de culturas importadas e imagens que muitas vezes nada têm a ver com a nossa história. Há por vezes, imagens de animais muito perigosos que vemos desenhadas no corpo de alguns jovens.

É expressão de liberdade, sim, mas também sinal de uma ruptura silenciosa com as raízes. Ao mesmo tempo, nas varandas das casas, os avós olham, abanam a cabeça e perguntam em silêncio: que memória cultural deixaremos, afinal, às próximas gerações?

As tatuagens, no tempo antigo, eram marcas de identidade. Cada risco na pele dizia pertença, contava linhagem, revelava uma história. Eram rituais, códigos de comunidade. Hoje, muitas vezes, são apenas estética, moda vinda das redes sociais, consumo de símbolos sem tradução local. E se cada tatuagem é uma escolha pessoal, o fenómeno colectivo levanta uma interrogação: estamos a registar na pele a nossa história ou a apagar, com tinta estrangeira, a memória cultural que nos define?

Os avós, que viveram a guerra, a luta pela terra e pela liberdade, perguntam-se que país vai nascer desta mistura. Eles viram símbolos erguerem-se em bandeiras e em cânticos de hino. Viram a cultura ser arma de resistência — danças que escondiam mensagens, canções que mobilizavam aldeias, estórias contadas à volta da fogueira que ensinavam valores. Agora, veem os netos com auscultadores nos ouvidos, tatuagens de super-heróis japoneses nos braços, frases em inglês no peito ou ainda um leão desenhado na bunda ou no umbigo. E, no fundo, temem: será que o futuro ainda terá lugar para as estórias da avó, para os provérbios, para os ritos de passagem, para os contos da tradição oral?

Mas não se trata de demonizar a tatuagem, nem a juventude. A questão é mais profunda: qual é o fio cultural que vai costurar as gerações? Que tipo de avós terão as novas gerações? Será que conseguimos encontrar um equilíbrio entre liberdade individual e preservação colectiva? As culturas moçambicanas sempre foram mestiças, sempre souberam integrar influências sem perder o essencial. A marrabenta dialoga com a guitarra portuguesa, o xigubo sobrevive ao lado do hip-hop, o batuque ressoa mesmo em beats eletrónicos. O perigo não está na novidade, mas no esquecimento.

Se os jovens tatuam frases em inglês, é porque talvez falte orgulho em frases nossas línguas nacionais, como é o caso do Emakhuwa. Se tatuam símbolos estrangeiros, talvez faltem símbolos nacionais que sejam celebrados, reinventados, postos em circulação. A juventude precisa de referências, precisa de um património que não esteja só nos livros escolares ou nos discursos oficiais, mas também na rua, na moda, na música, na tatuagem — sim, até na tatuagem.

Talvez o desafio esteja aí: fazer da tatuagem não apenas moda, mas também memória. Que tal ver pele marcada com desenhos inspirados em máscaras de Cabo Delgado? Em danças do Niassa? Em frases de José Craveirinha ou Noémia de Sousa ou ainda de Mukusakame de Nampula? Em símbolos de unidade nacional? Talvez, se dermos orgulho cultural, a juventude encontre no corpo o lugar mais íntimo e eterno para afirmar Moçambique.

No fim, quando os avós perguntam com preocupação “que memória cultural deixaremos?”, talvez os netos tatuados possam responder: “Deixaremos a nossa história inscrita na pele e na alma — mas com tinta que é nossa.”

Diz-se que, numa aldeia antiga de Wanamwáhiyu, vivia um velho narrador de histórias chamado Nivatho. Ele gostava de reunir os jovens à sombra do embondeiro e provocá-los com perguntas. Um dia, apareceu um rapaz cheio de tatuagens no braço, com brincos a brilhar e o cabelo entrançado em dreads. O rapaz vinha da cidade onde mora com o seu irmão mais velho. Os outros riram-se, chamaram-lhe “leão moderno”.

O velho Nvatho olhou, coçou a barba branca e disse:

— Meu filho, as tatuagens são bonitas, mas quero perguntar: quando fores avô, como vais mostrar às tuas netas que um homem não se mede pela tinta, mas pela palavra?

O rapaz sorriu, respondeu com ousadia:

— Avô, eu vou dizer que estas tatuagens são a minha história!

Nivatho abanou a cabeça devagar e retrucou:

— Histórias sem sentido são como tatuagem em pele de crocodilo: ninguém lê, ninguém entende, ninguém respeita.

A roda de jovens caiu na gargalhada. O rapaz tentou defender-se:

— Mas avô, o mundo mudou! Hoje os dreads, os brincos e as tatuagens são liberdade!

Então o velho levantou o cajado, bateu no chão e disse:

— Liberdade sem memória é como tambor sem pele: faz barulho, mas não tem som.

Silêncio. Até o vento parou.

Desde esse dia, o rapaz deixou de exibir as tatuagens como troféu e começou a perguntar aos mais velhos quais histórias valiam a pena carregar — na pele ou no coração. E mais não disse!

 

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