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OPINIÃO

Excelências!

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Excelências! Permitam-me começar chamando-vos exatamente como gostam de ser chamados. Esse título presunçoso que Repete-se nos corredores dos vossos gabinetes, que espalha-se nas conferências onde o povo só entra pela televisão e olhem lá. Excelências! O termo que se tornou mais importante que o caráter, mais sagrado que a responsabilidade e mais pesado que a própria realidade da nossa pátria amada.

Mas hoje, Excelências, não venho para vos aplaudir. Venho para vos lembrar com as palavras que vos escapam e as verdades que vos incomodam que esse título que tanto acariciam nos cartões de visita, nos convites formais, nos discursos, não alimenta ninguém. Não cura ninguém. Não educa ninguém. Não devolve o tempo perdido das crianças que estudam sentadas no chão, nem seca as lágrimas das mães que continuam a perder filhos nas maternidades por falta de tudo, menos promessas.

Excelências, acordem!

O povo que vos chama de “Sua Excelência” está cansado. Cansado das vossas cerimônias intermináveis, das vossas caravanas de carros que levantam pó e deixam para trás o mesmo povo que vocês juram representar. Cansado dos vossos discursos decorados, repetidos ano após ano, como se o problema fosse a memória do povo e não a vossa incompetência em resolver o que todo mundo conhece de cor.

Excelências, enquanto seguram microfones banhados a ouro e inauguram placas com os vossos nomes em letras reluzentes, há hospitais onde a única coisa que brilha é a esperança de alguém sobreviver. Enquanto discutem estratégias e planos quinquenais que só existem no papel, há salas de aula onde as crianças lutam contra a fome antes de lutarem contra a matéria. Enquanto discutem reformas estruturantes, há bairros inteiros onde a única reforma que chegou foi a do preço da farinha.

Sim, Excelências, é para vocês.

Vocês que transformaram o título em armadura e esqueceram que o povo não vos elegeu para desfiles, mas para trabalho. Trabalho de verdade. Aquele que suja as mãos, que exige decisões impopulares mas necessárias, que pede sacrifício pessoal antes de pedir paciência ao cidadão comum.

Excelências, onde estão quando o povo grita?

Onde estão quando Memba sangra, quando Cabo Delgado chora, quando Nampula enterra mais um jovem sem saber por quê? Onde estão quando os preços sobem e os salários evaporam? Onde estão quando a justiça dorme e a polícia decide atirar primeiro e perguntar depois? Onde estão quando o povo perde o medo e começa a perguntar aquilo que vocês evitam responder?

Talvez estejam em alguma conferência internacional, a tirar fotos com sorrisos perfeitamente ensaiados, a representar um país que só existe nas vossas apresentações em PowerPoint. Talvez estejam em encontros “técnicos”, onde o povo é apenas estatística. Talvez estejam em mais uma reunião de gabinete, onde cada um se preocupa mais com a cadeira do que com aquilo que deve ser feito a partir dela.

Excelências, deixem-me dizer-vos uma coisa que talvez ninguém vos diga porque vive com medo de perder o emprego, o projeto, a bolsa, a oportunidade: vocês brincam demais com a paciência deste povo. E a paciência não é eterna. Ela cansa, encolhe, evapora  e quando desaparece, nem vossos títulos, nem vossos guardas, nem vossas promessas conseguem segurá-la.

O povo não precisa de Excelências.

Precisa de líderes.

E líder, Excelências, não é quem manda. É quem serve.

Servir não é aparecer na televisão.

Servir não é cortar fita em obra atrasada.

Servir não é pronunciar discursos inflamados enquanto o país arde.

Servir não é usar o poder para intimidar jornalistas, silenciar ativistas ou perseguir quem diz a verdade.

Servir é baixar do pedestal e pisar o mesmo chão que o povo pisa.

É sentir o mesmo calor que o povo sente.

É olhar nos olhos, ouvir sem arrogância e agir sem vaidade.

Excelências, os vossos títulos não valem nada se o povo continuar a viver como se estivesse num país sem rumo, sem proteção e sem esperança. E a verdade, a dolorosa e inconveniente verdade, é que grande parte das vossas decisões parece mais teatro do que governo, mais encenação do que compromisso.

Por isso, Excelências, façam-nos um favor:

Entreguem ao povo metade da atenção que entregam aos vossos protocolos.

Metade da energia que gastam em conferências.

Metade da seriedade que usam quando defendem os vossos interesses.

Bastaria isso para o país começar a mudar.

Porque no fim do dia, Excelências, o título passa.

O poder termina.

A cadeira troca de dono.

Mas o povo fica com as suas dores, seus sonhos e suas cicatrizes.

Até lá, governem. Não desfilem.

Trabalhem. Não representem.

Respeitem. Não finjam. Porque o povo já viu demais das vossas palhaçadas.

 

 

 

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