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OPINIÃO

Case-se porque quero comer sal antes de morrer

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Há frases que carregam o peso inteiro de uma sociedade. “Case-se porque quero comer sal antes de morrer”, dizem ainda hoje alguns pais às filhas adolescentes, como quem recita um provérbio antigo, mas envenenado pela pressa e pela ignorância.

Por detrás dessa expressão, aparentemente inocente, escondem-se séculos de submissão feminina, fome disfarçada de tradição e pobreza travestida de cultura. É a voz de um patriarcado que não morre, apenas muda de roupa.

Em muitas aldeias do nosso país e de mais países africanos, o casamento precoce continua a ser o atalho para resolver carências e sustentar ilusões. Uma menina que devia estar na escola é convertida, de repente, em mulher. O seu corpo torna-se moeda de troca, e o dote — um saco de arroz, algumas capulanas, uma cabra ou um pouco de dinheiro — representa o “sal” que os pais esperam provar antes de morrer. É um sal amargo, feito de lágrimas, silêncios e sonhos roubados.

Esses casamentos, muitas vezes justificados por tradições distorcidas, têm raízes fundas na desigualdade social. Quando a fome ronda as casas e a escola parece distante demais, o casamento surge como solução imediata: um prato garantido, um tecto seguro, uma boca a menos para alimentar.

Contudo, o que parece solução é, na verdade, o início de outro ciclo de miséria. A menina, sem idade nem maturidade, entra num lar que a trata como serva, e não como companheira. O marido, geralmente mais velho, vê nela um investimento, alguém que deve retribuir com obediência, filhos e trabalho o dote pago à família.

O drama é silencioso, mas devastador. Aos 13, 14 ou 15 anos, muitas dessas meninas já são mães. Interrompem os estudos, abandonam as amizades, perdem a infância. Nos hospitais distritais, multiplicam-se os casos de complicações de parto e de depressão pós-natal. Nos mercados, encontram-se jovens mulheres com o olhar apagado, carregando bebés enquanto vendem tomates. E nas aldeias, as vozes que deviam protegê-las continuam a repetir o refrão cruel: “Pelo menos já se casou, e nós comemos sal.”

Por detrás desse costume existe uma concepção perversa de que nascer menina é sinónimo de lucro. Algumas famílias medem o valor das filhas pelo dote que receberão, como se cada nascimento fosse uma aposta no futuro económico da casa. A menina não é vista como sujeito de direitos, mas como activo familiar.

Essa lógica transforma a infância em mercadoria e perpetua a pobreza intergeracional. O dinheiro do dote acaba depressa; o prejuízo humano, esse, dura para sempre.

Urge uma mudança profunda de mentalidade, uma reeducação ética e cultural. Não basta proibir o casamento prematuro por lei (embora seja um passo necessário); é preciso transformar o imaginário colectivo.

As famílias precisam compreender que o verdadeiro “sal da vida” não está em comer à custa das filhas, mas em vê-las estudar, crescer e escolher por si mesmas. O Estado, por seu lado, deve investir na educação das meninas, reforçar programas de apoio às famílias vulneráveis e criar espaços de diálogo comunitário onde os anciãos e líderes religiosos sejam parceiros na mudança.

A escola e a igreja, juntas, podem devolver às palavras o seu sabor justo. O “sal” que os pais devem desejar provar antes de morrer é o da dignidade — o gosto de ver a filha formada, independente, com a cabeça erguida. Que cada pai e mãe aprenda que o amor não se mede em dotes, e que casar cedo não é destino, mas condenação.

Em Muecate, uma jovem chamada Alzira foi retirada da escola aos 13 anos para casar com um comerciante de 32. O pai dizia: “Pelo menos agora vou comer sal antes de morrer.” O casamento durou um ano. Alzira foi espancada, perdeu o bebé e voltou à casa paterna, magra e em silêncio.

Anos depois, com apoio de uma organização local, regressou à escola nocturna e concluiu a 10.ª classe. Hoje, trabalha como auxiliar de saúde e ajuda outras meninas a não desistirem. Quando fala aos pais nas reuniões comunitárias, costuma dizer: “O sal que os meus pais comeram custou-me a infância. Que as vossas filhas vos alimentem com orgulho, não com lágrimas.” E mais não disse!

 

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