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OPINIÃO

O que adianta ser um cego ouvindo coisas deste Moçambique?

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Ouço muita coisa… talvez até demais. Ouço vozes que se cruzam nas esquinas, nos chapas superlotados, nos corredores abafados das repartições públicas, nos mercados onde a vida se vende aos pedaços e nos recônditos onde a esperança repousa cansada. Ouço promessas, ouço justificações, ouço indignações, ouço silêncios e cada silêncio diz mais…

Mas o que adianta ouvir? O que adianta entupir os ouvidos de tanto barulho se, no fim, somos convidados a viver como cegos? Cegos que fingem não ver a realidade que se desenrola diante dos nossos olhos, como se a cegueira fosse a nova forma de sobrevivência neste Moçambique que parece ter desaprendido de se ouvir a si mesmo.

Dizem que não vale a pena passar-se de um surto, que não adianta perder a cabeça, que é melhor aceitar, engolir seco, seguir o fluxo. “Calma, tudo vai melhorar.” É o mantra nacional. Mas melhorar quando? Melhorar como? Melhorar para quem? Perguntas que se faz sem resposta, porque, neste país, perguntar já é quase uma ousadia e responder tornou-se um acto revolucionário.

Ouço muita coisa, sim. Ouço quando o vizinho comenta que o preço do pão subiu outra vez, mas na televisão garantem que a economia está estável. Ouço quando uma mãe chora porque o filho ficou doente, mas a unidade sanitária não tem comprimidos até para baixar febre. Ouço quando jovens reclamam porque estudaram anos e anos e continuam desempregados, enquanto outros, sem currículo mas com sobrenomes privilegiados, voam como se tivessem asas de ouro. Ouço quando os mais velhos dizem: “Já vimos isso antes, só mudam as caras, não mudam os hábitos.”

E eu pergunto: O que adianta ouvir tudo isso se querem que andemos como cegos? Cegos para as desigualdades gritantes, cegos para os buracos que engolem carros e sonhos, cegos para as promessas que se repetem como ladainhas, cegos para a corrupção que escorre como água de torneira avariada. Cegos para o sofrimento do povo que acorda cedo, trabalha duro e, no final do mês, ainda precisa fazer contas para ver se a vida cabe dentro do salário.

O mais triste é que, neste Moçambique, muitos confundem cegueira com prudência. Acham mais seguro fingir que não viram nada, que não escutaram nada, que não sabem de nada. Porque quem vê demais incomoda, e quem fala demais desaparece da fotografia. É esta a pedagogia da sobrevivência: cala-te, adapta-te, baixa a cabeça. Mas como exigir silêncio de quem já perdeu tanto?

Não há surto que resolva esta frustração colectiva. O grito que alguns chamam de exagero é, na verdade, o último pedaço de humanidade que resta a quem já viu demasiadas injustiças. Não é surto, é saturação. É o corpo a dizer “não aguento mais”, é a consciência a pedir espaço, é a alma a exigir dignidade.

Ser cego neste país talvez fosse mais confortável, admito. Porque quem vê sofre, quem ouve perturba-se, quem sente adoece. Mas que futuro pode ter uma nação onde todos escolhem não ver? Onde as pessoas trocam a visão por conveniência e a coragem por silêncio?

Eu escolho ouvir, mesmo que doa. Escolho ver, mesmo que incomode. E escolho escrever, mesmo que não mude o mundo. Porque, no meio deste caos, alguém precisa lembrar que Moçambique ainda pode ser melhor do que este retracto empoeirado que hoje nos entregam. E esse alguém pode ser qualquer um de nós que se recusa a ser cego, mesmo ouvindo muita coisa.

Não adianta tapar os olhos. O país só muda quando o povo decide enxergar. Até lá, continuaremos ouvindo coisas… e fingindo que nada vimos.

 

 

 

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