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OPINIÃO

50 anos depois, continuamos a lutar contra os donos do País

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No dia 25 de Junho, Moçambique completa 50 anos de independência. Cinquenta anos. Meio século. Mas será que somos mesmo independentes? A bandeira é nossa, o hino também é nosso, os discursos são feitos em nome do povo, mas a verdade, nua e crua, é que ainda vivemos o peso de um outro tipo de colonização, o colonialismo interno. Esse não vem de fora. Não tem nome português. Esse é moçambicano, tem nome e apelido conhecidos, veste fato e gravata, e governa com a mesma brutalidade que antes criticávamos nos colonos estrangeiros.

Samora Machel, nosso primeiro presidente, gritava com força: “A luta continua!”. E a luta continua mesmo, só que agora o inimigo não vem da metrópole colonial, não chega em navios ou aviões estrangeiros. O novo colono é de dentro, é o próprio moçambicano que se aproveita do poder para explorar os outros moçambicanos. Chamemos as coisas pelos seus nomes: temos um regime que transformou o Estado num negócio de família, onde os amigos, filhos e sobrinhos dos chefes são os donos do país, e o povo, esse mesmo povo que lutou na mata, continua a viver na miséria.

Passaram 50 anos desde a tão proclamada independência. E o que temos hoje? Temos escolas sem carteiras, professores a ensinar com fome, crianças a aprender debaixo das árvores. Temos hospitais que mais parecem casas de espera pela morte, onde os doentes são tratados com desprezo, onde faltam medicamentos básicos, e onde uma mulher grávida pode morrer só porque não há combustível na ambulância. Temos jovens que terminam a universidade e vão vender recarga ou andar de motorizada porque o diploma não serve para nada. Temos um país que continua rico em recursos, mas onde o povo continua pobre em tudo.

Em 1975, Moçambique herdou indústrias coloniais que funcionavam. A Fábrica Textil de Mocuba, a Fábrica de Chá de Gurúè, a Moçambique Railways, os sistemas ferroviários, a produção de açúcar em Marromeu, Mafambisse, Luabo… Hoje, muitas destas empresas fecharam. Os trabalhadores foram mandados para casa sem salário, e os seus filhos viraram vendedores de amendoim nas ruas. Onde havia produção, hoje há silêncio. Onde havia trabalho, hoje há esquecimento. Tudo foi saqueado aos poucos, com contratos obscuros, concessões fraudulentas e negócios feitos à porta fechada. O povo não participa. O povo não é ouvido. O povo só serve para bater palmas em comícios ou para fazer fila nas eleições, onde já se sabe quem vai ganhar, mesmo antes dos votos serem contados.

A corrupção é o alimento diário da classe dirigente. Roubam sem vergonha, enriquecem às custas da fome alheia, e quando alguém levanta a voz, é perseguido, preso, silenciado. Os jornalistas são ameaçados. Os activistas são maltratados. As manifestações são reprimidas com violência. E depois dizem que vivemos em democracia. Que tipo de democracia é esta onde só se pode aplaudir, mas nunca criticar?

Mas nem tudo foi mau. Houve alguns avanços, é verdade. Construíram-se universidades em todas as províncias. As telecomunicações melhoraram. Algumas estradas foram reabilitadas. Há jovens talentosos a brilhar, há mulheres a ocupar cargos importantes, há iniciativas positivas em várias comunidades. Mas a verdade é que esses progressos são pequenos diante do tamanho da miséria em que o país mergulhou. E o mais grave é que esses avanços muitas vezes não são fruto da boa governação, mas da persistência do povo que se recusa a desistir.

Moçambique não precisa de mais festas de independência. Não precisamos de mais discursos bonitos, de marchas e desfiles coloridos. O povo precisa de dignidade. Precisa de justiça. Precisa de verdade. O nosso maior erro é termos substituído o colono branco por dirigentes negros que se comportam como patrões coloniais, vivendo luxuosamente enquanto o povo morre com 20 meticais no bolso e um saco de farinha por mês.

É preciso acabar com este colonialismo interno. É urgente destruir este sistema que protege os ladrões e castiga os inocentes. É necessário falar sem medo, gritar sem receio, denunciar sem hesitar. Porque a liberdade verdadeira só existe quando o povo é respeitado, quando o governo governa para todos e não só para os seus.

Samora Machel sonhou com um país justo, digno, solidário. Mas os seus sonhos foram traídos por aqueles que ficaram com o poder. Samora morreu. E os seus sonhos morreram com ele? Talvez não. Talvez ainda vivam nas vozes que se erguem. Talvez ainda respirem nas aldeias esquecidas, nos jovens que não aceitam calar-se, nas mulheres que continuam a lutar. Mas esses sonhos só vão florescer se tivermos coragem de dizer basta.

Vamos destruir o colonialismo interno, antes que ele destrua Moçambique por completo. A luta continua, sim. Mas agora é contra os nossos próprios opressores.

Ser Pobre Não É Defeito

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