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OPINIÃO

As línguas moçambicanas só nos dividem?

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Foi numa paragem de chapa, ali mesmo no mercado do Waresta, que ouvi a pergunta que me ficou atravessada no peito como um espinho de embondeiro:

— Mãe, por que é que aquela senhora está a rir de mim só porque falei na nossa língua macua?

A menina não tinha mais que oito anos. Estava de blusa azul, cabelo trançado com contas coloridas e olhos arregalados de vergonha. A mãe, vendedora de verduras, respondeu baixo, com ar cansado: — Aqui na cidade de Nampula, filha, às vezes as pessoas esquecem de onde vieram.

O cenário era o mesmo de sempre, aquele retrato vivo que só quem anda de sol na pele e pó nos sapatos conhece bem. Os chapas passavam aos arrancos, a buzinarem como se estivessem zangados com o mundo e atrasados para um destino que nunca chega. Motoristas impacientes gritavam nomes de bairros entre dentes, cobradores pendurados nas portas estalavam as notas suadas, e os passageiros espremidos pareciam parte de um ritual diário de resistência.

O ar era espesso, pesado de cheiros misturados: o fumo do carvão que saía dos fogareiros dos vendedores de minani, o perfume doce e exagerado dos corpos apressados, o cheiro ácido de peixe seco pendurado em sacos plásticos como troféus da sobrevivência, e o suor da cidade a ferver no calor da tarde. Tudo isso temperado com a poeira fina que se colava à pele como lembrança do chão batido.

Nas bancas improvisadas, as vozes misturavam-se numa sinfonia improvisada — vendedoras a regatearem preços com a força da garganta, pregadores a gritarem salvação com megafones quase a arrebentar, e altifalantes roucos a despejarem kizomba, nsiripwiti, marrabenta e músicas do professor Warila, e às vezes até Munahiwe que tocava das ondas da Rádio Moçambique. Em meio ao som das palavras, passavam anúncios da Movitel e da Vodacom, a prometerem internet grátis e megas que nunca duram. Era a cidade a viver no seu ritmo de pressa e espera: gente que corre para sobreviver, mas também que espera, sem saber o quê, talvez um emprego, talvez uma mudança, talvez apenas uma trégua do caos.

As crianças corriam entre as bancas com chinelos gastos, a jogar com garrafas de plástico e latas vazias, enquanto os adultos carregavam baldes, sacos, e silêncios. Cada rosto uma história, cada canto um mundo inteiro. Era a cidade viva, respirando descompassada, mas respirando. Uma Nampula, capital do norte, que não dorme, que canta alto para esconder as dores, que dança com os pés calejados e que fala todas as línguas, mesmo que algumas ainda sejam tratadas como ruído ou inúteis.

Ali, onde tudo parece igual todos os dias, tudo pulsa com significados. É só quem ouve com o coração que percebe.

Mas naquele momento, tudo parou. A menina falava Emakhuwa com naturalidade, como quem respira. Disse só que queria um pedaço de “puto”, aqueles bolinhos salgados a sabor de acuçar e trigo. Uma coisa tão simples. Mas uma mulher, sentada num banco de plástico, soltou uma gargalhada alta.

Disse em voz clara:

— Aqui é cidade, miúda. Fala direito! Quando foi que vieste do distrito?

A menina calou-se. O rosto dela ficou murchinho, como se alguém tivesse apagado a luz dos olhos.

Eu vi aquilo tudo. E doeu.

Doeu porque não era só sobre aquela criança. Era sobre todas as vezes em que nos ensinaram a ter vergonha do que somos. Todas as vezes em que a nossa voz foi medida pelo metro da cidade. Pelo padrão do poder. Pelo medo de ser chamado de “matreco ou campestre”. Classificam-nos socialmente, pelo nível de português ou inglês padrão que falamos de olhos fechados.

Afinal, quem é que nos convenceu de que falar Emakhuwa, Xichangana, Cinyanja, Elomwe ou Enahara é um sinal de atraso? Desde quando é que a língua da nossa avó passou a ser vista como um problema?

É verdade: temos mais de 40 línguas neste país. Mas isso não devia ser motivo de divisão. Devia ser nossa maior riqueza. A diversidade não é uma ameaça. É um espelho com várias faces. Cada língua carrega uma forma de ver o mundo, de consolar o sofrimento, de ensinar a coragem, de agradecer a chuva e de nomear o amor.

Dizem que as línguas moçambicanas nos dividem. Mas não. O que nos divide é o desprezo com que tratamos a nossa própria pele, a nossa própria fala, a nossa história contada em vozes pequenas. A verdadeira divisão não está na língua, está no ouvido que se recusa a escutar.

A cidade não pode ser cemitério de identidade. Nem escola de silêncio.

A menina da paragem ainda me visita nos pensamentos. E sempre que a lembro, desejo que um dia ela volte a falar Emakhuwa em voz alta, com orgulho, no meio da rua, sem medo de rir nem de ser rida.

Porque língua não é só comunicação. A língua é a nossa identidade. É abrigo. É chão. É bandeira invisível.

E se Moçambique quer realmente ser uno, vai ter que aprender a dançar com todas as suas vozes, não só com aquela que aprendeu nos livros.

No fim das contas, meu irmão, o que separa não são as línguas.

É o silêncio em que obrigamos o outro a viver. E mais não disse!

 

 

 

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