OPINIÃO
Já não há tempo para ser humano
Há dias em que me sento sozinho, olho para o vazio e lembro-me daquele tempo… aquele tempo em que o tempo parecia não passar. Um tempo em que as horas eram longas, os dias tinham gosto, e as pessoas tinham tempo — tempo para conversar, para ouvir, para viver.
Sinto saudades de quando a vida era mais simples. Quando um “bom dia” vinha com sorriso, quando os vizinhos se conheciam pelo nome e partilhavam o que tinham, mesmo que fosse pouco. Lembro-me de correr descalço na rua, de brincar até ao pôr do sol, e de voltar a casa com os pés sujos e o coração cheio. Não havia pressa, não havia telemóveis a tocar de minuto a minuto, nem redes sociais a roubar o sossego da alma.
Hoje, temos relógios no pulso, no telefone, na parede e no computador. Mas parece que nunca temos tempo. Acordamos cansados, almoçamos com pressa, e vamos dormir a pensar no que ficou por fazer. E no meio desta correria, esquecemo-nos de viver.
Naquele tempo antigo, talvez com menos tecnologia e menos conforto, havia mais presença. As pessoas olhavam nos olhos, escutavam de verdade, choravam e riam juntas. As cartas demoravam dias a chegar, mas cada uma carregava emoção, peso, verdade. Hoje, mandamos mensagens vazias a correr, com emojis a tentar substituir sentimentos que já nem sabemos expressar.
Sinto saudades de quando os domingos eram de família, com arroz de forno e histórias contadas pelos mais velhos. Sinto falta de ver crianças a brincar com pedras, paus e imaginação e não com tablets e vídeos do YouTube. Sinto falta do silêncio, do tempo de pensar, de sonhar acordado, de não ter nada para fazer e não me sentir culpado por isso.
Talvez eu esteja a envelhecer. Ou talvez o mundo esteja a perder o seu sabor. Corremos tanto atrás do futuro que esquecemos o valor do agora. Esquecemos que o tempo só tem valor quando é vivido com verdade.
Sim, tenho saudades. Saudades de um tempo onde o tempo parecia não passar… e, por isso mesmo, era mais cheio de vida.
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