SOCIEDADE
50 anos de independência: avanços reconhecidos, mas Moçambique continua refém de desigualdades e dependência externa
No dia em que Moçambique assinala 50 anos de independência nacional, vozes da academia e da análise política lançam uma reflexão crítica sobre o percurso do país desde 1975. Se por um lado são reconhecidos avanços em áreas como educação, saúde, infraestrutura e justiça, por outro, persistem desafios profundos relacionados à independência económica, à fragilidade da democracia e à exclusão social.
Zefanias Namburete, Bogaio Nhacalaza e Marchal Manfredo são unânimes em reconhecer a libertação colonial e política como um dos grandes marcos históricos. No entanto, divergem nos diagnósticos sobre os reais ganhos para o povo moçambicano.
Para Namburete, “há sinais concretos de desenvolvimento. A presença de universidades em todas as capitais provinciais e escolas secundárias até em alguns distritos é resultado directo das políticas públicas pós-independência”. O analista lembra ainda a existência de hospitais centrais nas três regiões do país e centros de saúde em quase todos os distritos. A taxa de alfabetização, que em 1975 era de apenas 10%, ronda actualmente os 90%, e a esperança média de vida aumentou significativamente.
Contudo, ele alerta que a independência económica continua por conquistar. “Precisamos de uma reflexão séria sobre os acordos com parceiros internacionais. Muitos deles não beneficiam o país. Veja-se o caso da Vale, em Tete: exploraram os nossos recursos, mas os benefícios para a população local foram mínimos.”
Bogaio Nhacalaza, por sua vez, confirma os avanços no sistema educativo, mas denuncia as gritantes desigualdades no acesso e qualidade. “Ainda há crianças a estudarem no chão, em troncos, pedras ou debaixo de árvores. Isso não faz sentido num país que celebra 50 anos de independência.” Ele também destacou como positivo o fim da pena de morte e a expansão do sistema judiciário com novos tribunais e formação de juízes. Mas alertou para a precariedade das cadeias e a ausência de estruturas adequadas para menores infractores. “A nossa democracia é frágil. As instituições estão frágeis e há muito por fazer.”
Marchal Manfredo, académico e activista, foi mais incisivo na sua crítica. “O único ganho que tivemos foi a expulsão dos colonos. De resto, vivemos mergulhados na miséria.” Para ele, a raiz do problema está na falta de unidade nacional e no enfraquecimento do sentido colectivo de nação. “A desunião, o regionalismo, o ecocentrismo, o poder do dinheiro – tudo isso corrói Moçambique. Colocamos o ‘eu’ acima do ‘nós’ e esquecemo-nos que uma pátria constrói-se com ideais partilhados.”
Manfredo lamenta que, passados 50 anos, o país ainda enfrente fome, má educação, precários serviços de saúde e desigualdades profundas. “Temos tudo para ser uma grande nação, mas não conseguimos juntar ideias e projectar um futuro comum. Perdemos o sentido de pertença.”
Em síntese, os três analistas convergem num ponto central: Moçambique precisa reencontrar o espírito de construção colectiva que guiou os heróis da luta de libertação, e que, de alguma forma, se foi diluindo com o tempo. A independência conquistada em 1975 precisa agora de ser completada com justiça social, soberania económica e um pacto nacional renovado. Vânia Jacinto
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