SOCIEDADE
Sociólogo alerta para fracasso do Estado-providência e pede emergência da sociedade-providência
O sociólogo moçambicano Pedrito Cambrão advertiu, esta quarta-feira em Maputo, que Moçambique corre o risco de comprometer os ganhos da independência caso não consiga transformar a democracia política em democracia social. A posição foi defendida na sua intervenção na VII Conferência Internacional do IESE, dedicada aos 50 anos de independência do país.
Segundo Cambrão, o Estado moçambicano falhou na consolidação de um verdadeiro Estado-providência, capaz de garantir direitos básicos como saúde, educação, habitação e segurança social. “O voto perde o seu valor quando a urna não se traduz em pão na mesa, escolas dignas para as crianças ou hospitais com medicamentos disponíveis”, afirmou perante académicos e decisores políticos.
O investigador explicou que, em vez de um Estado social robusto, o país assiste ao surgimento do que designa como “sociedade-providência”, protagonizada por organizações comunitárias, igrejas, universidades, ONGs e fundações. “A fundação Tzu Chi é exemplo disso, ao oferecer escolas e casas a vítimas do ciclone Idai, assumindo responsabilidades que caberiam ao Estado”, ilustrou.
Na sua análise, o Estado deve passar a desempenhar um papel facilitador, criando condições legais e institucionais para que a sociedade civil se organize em respostas colectivas. “Não é possível falar de governação sustentável sem a participação activa de forças vivas para além do aparelho estatal”, defendeu.
Cambrão não poupou críticas à corrupção e à opacidade que, segundo ele, marcam a gestão pública em Moçambique. Denunciou o secretismo nos contratos, o afastamento das populações das decisões públicas e a “globalização da indiferença” que, nas suas palavras, anestesiou a sociedade. “Precisamos romper com este ciclo vicioso de apatia e impunidade”, alertou.
Para o sociólogo, a democracia representativa encontra-se esgotada, tendo-se transformado em partidocracia, onde os deputados respondem mais aos interesses dos partidos do que às necessidades do povo. “Os representantes tornaram-se amputados da realidade, preocupados com regalias pessoais e não com a vida do cidadão comum”, criticou.
Face a este cenário, Cambrão defendeu o fortalecimento da democracia participativa, com orçamentos inclusivos, assembleias comunitárias e plataformas deliberativas. “O povo deve fiscalizar os deputados, e estes devem prestar contas ao povo que os elegeu e não ao partido”, sublinhou.
O académico acrescentou que o futuro de Moçambique dependerá da capacidade de enfrentar as desigualdades e de transformar a chamada “maldição dos recursos naturais” em oportunidades de desenvolvimento equitativo. “Se não reinventarmos o país agora, os próximos 50 anos serão apenas uma repetição dos erros dos últimos 50. A independência não pode ser em vão”, concluiu. Faizal Raimo
-
SOCIEDADE6 meses atrásUniRovuma abre inscrições para exames de admissão 2026
-
SOCIEDADE2 anos atrásIsaura Nyusi é laureada por sua incansável ajuda aos mais necessitados e recebe título de Doutora
-
CULTURA2 anos atrásVictor Maquina faz sua estreia literária com “metamorfoses da terra”
-
DESPORTO2 anos atrásReviravolta no Campeonato Provincial de Futebol: Omhipithi FC é promovido ao segundo lugar após nova avaliação
-
OPINIÃO2 anos atrásO homem que só gostava de impala
-
ECONOMIA10 meses atrásGoverno elimina exclusividade na exportação de feijão bóer e impõe comercialização rural exclusiva para moçambicanos
-
POLÍTICA11 meses atrásGoverno de Nampula com nova cara: nove novos administradores e várias movimentações
-
OPINIÃO2 anos atrásDo viés Partidocrático à Democracia (Participativa)
