POLÍTICA
Pedrito Cambrão e Bartolomeu Romane alertam para fragilidades na prevenção e no ordenamento territorial face às cheias.
O sociólogo Pedrito Cambrão e o ambientalista Bartolomeu Romane alertam que as cheias que se registam actualmente na região sul de Moçambique expõem a vulnerabilidade do país face aos riscos climáticos e evidenciam a necessidade urgente de reforço da preparação institucional e do ordenamento territorial.
Ambos sublinham que Moçambique é historicamente exposto a cheias e ciclones, mas continua a carecer de medidas eficazes de prevenção, tanto ao nível institucional como comunitário.
Para Pedrito Cambrão, as cheias recorrentes revelam uma sociedade marcada pelo risco e pela incerteza, num contexto em que o país deveria priorizar a preparação das instituições para fazer face aos vários riscos, sobremaneira a gestão dos riscos climáticos , e a educação e/ou conscientização da população sobre o momento de mudanças climáticas, que vivemos, e o que isso significa. Segundo o analista, a prevenção não pode limitar-se à respostas imediatas durante ou após os desastres. Não devemos ser uma sociedade reactiva, mas que proactiva.
“As instituições governamentais devem avisar as pessoas a retirarem-se das zonas de risco com uma comunicação institucional à altura, com muita antecedência e bem articulada em relação aos eventos extremos. A população precisa ser conscientizada e educada quanto ao momento de mudanças climáticas que vivemos. Outrossim, para os centros de acolhimento, eh preciso criar condições humanas para albergar dignamente as pessoas: condições de higiene, saúde, alimentação…. Por fim, eh preciso necessário investir muito nos meios de resgate, porque nem todos aceitam sair, a tempo e hora, para além dos que são encontrados de surpresa. Sendo o nosso maior valor, a vida, eh imperioso até a salvação de vidas seja prioridade”, afirmou.
Cambrão defende ainda a adopção de medidas estruturais e construções resilientes, lembrando que persistem fragilidades na construção infraestruturas como estradas, pontes, incluindo edifícios públicos (escolas, hospitais….).
“Estamos em tempos de mudanças climáticas e já se fala de construções resilientes. Não faz sentido que a N1 continue a apresentar problemas básicos de má construção, assim como algumas pontes que desabam logo com a primeira chuva, depois da sua inauguração. Troços críticos como Magul-Palmeiras e Save–Muxúnguè precisam ser reforçados, com mais pontecas, aquedutos e, por que não levantar o piso como se fez com o troço Xai-Xai – Chicumbane, após as cheias de 2000”, sublinhou.
No contexto urbano, o analista chama atenção para a urgência do ordenamento territorial, sobretudo nas cidades.
“Nos bairros das cidades de Maputo e Maputo, bem como noutras deste vasto Moçambique, é necessário que se tenham sistemas de drenagem, bacias de retenção de águas e construções ordenadas. é inconcebível que, hoje, alguém construa em lugares impróprios. Afinal, quem autoriza? A responsabilidade não é só da população. O Estado tem o dever de fiscalizar e punir os prevaricadores. Já basta de construir em leitos de água e em zonas de risco”, defendeu.
Cambrão apelou ainda a uma relação mais equilibrada entre o homem e a natureza, lembrando que faz parte da biodiversidade, daí que mereça o devido respeito.
“O homem não deve impor-se à natureza, mas dialogar com ela. A água tem o seu leito e deve ser respeitado. A biodiversidade significa respeito por outras formas de vida. E a água faz parte da biodiversidade.”, afirmou.
Por sua vez, o ambientalista Bartolomeu Romane considera que a actual situação das cheias em Moçambique reforça a necessidade de urbanização planificada e da construção de infraestruturas adequadas para a evacuação das águas pluviais.
“O problema não se resolve apenas com alertas. É preciso planeamento territorial e obras estruturais eficientes. O município deve delimitar os terrenos, identificar zonas de risco, que são caminhos naturais da água, e investir em boas manilhas e valas para o escoamento”, explicou.
Romane destacou igualmente a importância da conscientização da população quanto à ocupação de áreas vulneráveis.
“Se o Governo diz que determinada zona é de risco e não deve ser ocupada, nós, como cidadãos, devemos respeitar. Caso contrário, acabamos por criar tragédias”, alertou.
Sobre os investimentos em infraestruturas, o ambientalista reconheceu avanços, sobretudo na cidade de Maputo, mas advertiu que os bairros suburbanos continuam expostos.
“Hoje chove e já não há grande acumulação de água no centro da cidade, resultado de investimentos elevados. No entanto, é preciso avançar mais, especialmente nos bairros suburbanos, que continuam a registar inundações”, afirmou.
Romane defende que medidas estruturais, urbanização ordenada e conscientização da população devem caminhar juntas para reduzir a vulnerabilidade do país face às cheias e aos crescentes riscos climáticos. Vânia Jacinto
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