OPINIÃO
O jornalismo sempre vencerá, mesmo sufocado
Num país que se proclama constitucionalmente democrático, onde a liberdade de expressão e o direito à informação deviam ser prato típico do quotidiano, o jornalismo moçambicano continua a exercer a sua missão debaixo de perseguição, medo e, em casos extremos, sob a mira da morte. Ainda assim, resiste. E resiste porque a verdade não se assassina com balas.
O passado recente expôs, de forma cruel, a intolerância crescente contra a actividade jornalística em Moçambique. O atentado contra o jornalista Carlitos Cadangue, correspondente da STV na província central de Manica, é um exemplo gritante de como informar se tornou um acto de coragem extrema. A sua viatura foi crivada de balas, num cenário que só não terminou em tragédia maior porque, como muitos dizem, foi Deus quem protegeu a sua integridade física, e a do seu filho, que o acompanhava e foi, ironicamente, quem alertou o pai sobre a posição suspeita assumida pelos esquadrões da morte.
Este episódio não é apenas um ataque a um profissional da comunicação social. É uma violação grave de direitos fundamentais consagrados na Constituição da República. Foram postos em causa, de forma directa e inequívoca, o direito à vida, previsto no artigo 40, bem como o direito à informação e à liberdade de expressão, pilares essenciais de qualquer Estado que se queira democrático.
Mas o que estará por detrás deste cenário sombrio? A pergunta ecoa na sociedade e encontra resposta naquilo que muitos já suspeitam, e não sem razão. Nos últimos meses, Carlitos Cadangue destacou-se por reportagens incisivas sobre a mineração ilegal, uma prática recorrente e altamente lucrativa na província de Manica. São precisamente estas reportagens, feitas com rigor, que incomodam os detentores de interesses obscuros, aqueles que veem na verdade uma ameaça aos seus negócios e no jornalista um inimigo a abater.
Silenciar quem procura esclarecer a sociedade tornou-se, para alguns, uma estratégia. Uma estratégia perigosa, criminosa e profundamente antidemocrática. Mais preocupante ainda é o silêncio que se segue a estes crimes hediondos. Onde estão os esclarecimentos? O que fazem, afinal, as autoridades de investigação perante atentados desta gravidade? A impunidade tem sido a resposta mais visível, uma resposta que não responde, que não conforta e que não faz justiça.
A pergunta não quer calar. E talvez não tenha, até hoje, uma resposta plausível. Mas uma certeza permanece: enquanto houver jornalistas dispostos a enfrentar o medo para contar a verdade, o jornalismo continuará vivo. Podem tentar sufocá-lo, persegui-lo ou intimidá-lo. No entanto, a história prova que a verdade pode ser adiada, mas nunca eliminada.
O jornalismo sempre vencerá, mesmo quando tentam matá-lo.
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