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OPINIÃO

O dever de reserva e a responsabilidade do funcionário público

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O espaço público tornou-se, nos últimos anos, uma arena de debates intensos, amplificados pela velocidade das redes sociais e pela ânsia mediática de publicar o que causa maior impacto. Neste cenário, o funcionário público precisa de redobrar o cuidado. Nem tudo o que se ouve em fóruns internos pode, ou deve, ser transformado em manchete.

A função pública não é um palco de protagonismos individuais. Ela é regida por princípios claros de legalidade, lealdade institucional, imparcialidade e sigilo profissional. Em Moçambique, a Lei do Estatuto Geral dos Funcionários e Agentes do Estado estabelece deveres inequívocos, entre eles o dever de sigilo, de correção e de respeito pela hierarquia. O funcionário não fala apenas por si; quando se pronuncia publicamente sobre matérias sensíveis da administração, a sua voz pode ser confundida com a posição oficial do Estado.

O problema surge quando, em ambientes de debate, determinados funcionários extrapolam o consumo interno das informações, trazendo a público alegações ainda não confirmadas ou mal interpretadas. Em muitos casos, o que é apresentado como “verdade dos factos” não passou pelo crivo de uma investigação rigorosa. Contudo, uma vez lançado no espaço mediático, o dano institucional já está feito. A imprensa replica, o debate alastra-se, e a opinião pública forma juízos precipitados sobre a gestão governativa.

Não se trata de defender o silêncio cúmplice nem de desencorajar denúncias legítimas. O combate à corrupção e às irregularidades é um dever cívico. Mas esse combate deve seguir os canais próprios, respeitando os mecanismos legais de reporte e averiguação. Quando um funcionário público surge a denunciar supostas interferências “ao mais alto nível” sem recorrer previamente aos instrumentos institucionais adequados, que mensagem transmite às comunidades? Que o Estado é desorganizado? Que as estruturas formais não funcionam? Que a hierarquia é irrelevante?

Num país onde os cidadãos já conhecem — e bem — o seu direito de reivindicar, o discurso irresponsável de um agente do Estado pode alimentar a desconfiança generalizada nas instituições. A crítica interna é saudável; a exposição leviana pode ser destrutiva.

Ser funcionário público é mais do que ocupar um cargo. É assumir uma postura ética permanente. Saber quando falar, onde falar e como falar é parte integrante da responsabilidade funcional. A liberdade de expressão existe, mas não é absoluta no exercício de funções públicas. Ela deve ser harmonizada com o dever de reserva, sob pena de se transformar em instrumento de instabilidade administrativa.

O Estado não precisa de funcionários temerários, nem de cúmplices do erro. Precisa de servidores conscientes da dimensão das suas palavras. Porque, no fim, a credibilidade das instituições constrói-se também no silêncio prudente — e destrói-se na imprudência de uma declaração.

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