OPINIÃO
O decreto abismal dos 65/75 que protege a quem devia proteger
A nova lei que estica a idade da aposentadoria no aparelho do Estado chegou com a roupagem da necessidade fiscal e da sustentabilidade, essa caneta desliza leve e festiva sobre o papel oficial, mas o som que ela faz nos ouvidos do povo pomposas que costumam servir de anestesia para medidas amargas.
Para o funcionário do escalão de base, aquele que gastou a sola do sapato e a paciência em balcões poeirentos ou salas sem ar-condicionado, a notícia é um balde de água quente. Ele, que já contava os meses para finalmente cultivar o seu quintal ou ver o crescimento dos netos sem o peso do relógio de ponto, agora vê a linha de chegada ser movida para mais longe, como uma miragem no deserto.
A ironia, porém, é que o Estado não é uma massa uniforme. Enquanto o professor cansado e a enfermeira exausta lamentam o vigor que já não têm para mais cinco ou dez anos de labuta, há um grupo que brinda silenciosamente nos gabinetes acarpetados.
Para a elite política e os altos cargos de confiança, o aumento da idade não é um fardo; é uma prorrogação de privilégios. Para quem ocupa as cadeiras onde o poder emana e onde as benesses de representação, os carros de luxo e as ajudas de custo tornam a vida mais doce a aposentadoria é quase um castigo, um afastamento do banquete. Prolongar a permanência no aparelho é garantir que a estrutura continue servindo aos mesmos nomes, impedindo a renovação e mantendo o status sob o pretexto da experiência.
Critica-se a lei não pela aritmética, que talvez até faça sentido nos livros de economia, mas pela ética da desigualdade. É fácil votar pelo trabalho tardio quando o seu trabalho consiste em decidir a vida dos outros sob o frescor do ar-condicionado e a segurança de uma conta bancária recheada. Difícil é explicar ao cidadão que carrega o país nas costas que ele deve carregar por mais tempo, para que os mesmos de sempre não precisem largar o osso.
Para a elite de colarinho branco, o aumento da idade não é uma sentença de cansaço, mas um convite para o bis São os donos das cadeiras de couro, os dinossauros que confundem o serviço público com propriedade privada. Para eles, cinco anos extras significam mais cinco anos de regalias, carros de luxo e a influência que só o poder concede. A aposentadoria, para quem manda, é o exílio do banquete; por isso, brindam à eternidade nos cargos enquanto o ar-condicionado abafa o som das ruas.
O Sonho que Envelhece na Fila
Do outro lado do balcão, a conta é paga por quem tem pressa. O jovem, com o
diploma debaixo do braço ve o brilho nos olhos a apagar-se, olha para o aparelho do Estado e vê as portas trancadas por dentro. Para cada veterano que resiste no cargo, há um recém-formado que desiste do futuro, empurrado para a informalidade ou para a eterna espera. A juventude sente-se como quem chega a uma festa onde os convidados de honra se recusam a ir embora, mesmo depois de as luzes se apagarem, a lei é um muro que protege o privilégio de quem já tem tudo e barra a esperança de quem não tem nada. Enquanto uns celebram a longevidade no poder, outros envelhecem sem sequer ter tido a chance de começar
No fim das contas, a reforma parece um espelho invertido: protege quem deveria sair para dar lugar a novos ares e castiga quem já deu tudo o que tinha para oferecer. O Estado envelhece por decreto, mas quem paga a conta do tempo é, como sempre, quem menos usufrui do seu luxo.
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