OPINIÃO
O declínio da escuta aos mais velhos
Não me julguém de saudosismos. Ainda bem que não sou cota (gargalhadas de 5 minutos).
Há tempos em que a juventude parecia nascer com um ouvido já virado para os mais velhos. Era o ouvido da atenção, da humildade e do respeito. Sentar-se ao redor da fogueira, escutar histórias de bravura, de guerra, de amor, de sobrevivência, era como beber da fonte da própria identidade. Hoje, no entanto, vivemos num tempo em que muitos jovens estão mais preocupados em tirar selfies do que em ouvir os avós. A fotografia substituiu a escuta, a vaidade substituiu a memória. É a geração das telas digitais. A geração android.
É certo que o mundo mudou. A modernidade trouxe consigo aparelhos brilhantes, telas que piscam, sons que invadem. Mas, em contrapartida, arrancou-nos algo essencial: a paciência de escutar. Hoje, um conselho de um velho dura menos tempo na cabeça de um jovem do que um vídeo de trinta segundos no telefone. O riso pela fotografia sai mais rápido do que o respeito pela palavra.
E o que é que perdemos com isto? Perdemos o fio da continuidade. Porque a sabedoria dos mais velhos não é apenas lembrança de outros tempos: é bússola. Quando deixamos de os ouvir, ficamos órfãos do nosso próprio rumo. Ficamos como quem caminha em estrada esburacada sem saber onde está o buraco maior.
Mas a questão vai além da mera falta de respeito. É uma crise de valores. Selfies multiplicam-se todos os dias, mas a sabedoria não se multiplica sozinha: exige cultivo, diálogo, escuta. E quando a juventude se fecha no brilho do ecrã, está a deixar que as raízes da árvore seque. Não é apenas um problema de educação familiar; é reflexo de uma sociedade que trocou a convivência pelo consumo, o tempo lento pela pressa, o conselho pela curtida.
Os mais velhos vão partindo. E com eles, partem bibliotecas inteiras de saber, de histórias, de soluções ancestrais que poderiam iluminar os nossos dilemas actuais. O que ficará para as futuras gerações? Um álbum de selfies sem memória? Uma timeline cheia de rostos sorridentes mas vazios de sabedoria?
É urgente que repensemos a forma como vivemos hoje. Escutar os mais velhos não é atraso, é investimento. Não é nostalgia, é estratégia de sobrevivência cultural. Porque nenhum telefone, por mais inteligente que seja, sabe ensinar como se guarda a dignidade em tempos difíceis, como se reconcilia uma família em conflito, ou como se semeia esperança em terreno árido.
Selfies passam, sabedoria fica. E se não soubermos escutar, estaremos a condenar-nos a viver num país que sorri para a câmara mas esquece-se de olhar para dentro de si mesmo.
Como tenho contado, nestas aventuras literárias, o meu sobrinho Antoninho ganhou um telefone de última geração vindo do seu tio, meu irmão, que vive na África do Sul. Andava de um lado para outro a tirar selfies: na latrina, na machamba, até no enterro do próprio vizinho. Um dia, encontrou o avô sentado à sombra da mangueira, e o velho chamou:
— Meu neto, chega aqui, quero ensinar-te o segredo de como se prende uma cabra que foge sempre do curral.
O jovem, sem tirar os olhos do telefone, respondeu:
— Avô, espera só, deixa primeiro eu tirar selfie com a cabra, para postar no grupo do WhatsApp!
O avô suspirou, abanou a cabeça e disse:
— Eh, meu filho… um dia essa cabra vai fugir, e tu vais ficar com a fotografia dela, mas sem carne no tacho.
E a aldeia inteira riu-se, porque sabiam que o velho tinha falado verdade. E mais não disse!
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