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OPINIÃO

Nampula, 69 anos depois… e nós, o que fizemos dela?

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Neste mês de Agosto, a cidade de Nampula completa 69 anos desde que foi elevada a categoria de cidade. E é inevitável que nos perguntemos: o que fizemos dela? Que cidade deixámos crescer, que sonhos ajudámos a realizar, que esperanças destruímos, que futuro construímos?

Nampula foi pensada para ser um dos grandes centros urbanos do país. Chamam-lhe “capital do norte”. E sim, é verdade que cresceu em população, cresceu em comércio, cresceu em número de casas, de carros e de confusão. Mas será que cresceu em dignidade? Em ordem? Em justiça? Em bem-estar para todos?

Quem caminha hoje por Nampula, sente um aperto no peito. O trânsito é um caos. As ruas estão cada vez mais pequenas para tanta gente e tanto carro. Os passeios desapareceram, tomados por barracas, lojas de chineses, vendedores ambulantes, lixo e buracos.

E as tais “vias alternativas” que podiam ajudar a aliviar o trânsito? Pois bem… já foram vendidas! Não se sabe bem como, mas terrenos que deviam servir o público tornaram-se propriedades privadas. Muitos foram parar às mãos de estrangeiros ou “amigos dos chefes”, onde hoje se erguem armazéns, talhos e barracas de bebida. Para alguns, o negócio falou mais alto do que o bem comum.

Fala-se muito de Mahamudo Amurrane, e com razão. Foi um presidente municipal diferente, que tentou pôr ordem, combater a corrupção e limpar a cidade. Mas é preciso dizer a verdade: Amurane não foi o primeiro líder de Nampula.

Antes dele, houve outros presidentes, nomeadamente aqueles dos tempos do partido único, onde tudo era controlado de cima. Não se pode falar da história de Nampula sem lembrar que durante muitos anos, os presidentes do município eram escolhidos mais por afinidade política do que por mérito ou vontade do povo.

Muitos desses líderes pouco fizeram para resolver os problemas da cidade. Deixaram crescer os bairros sem planeamento, permitiram construções em zonas de risco, ignoraram os mercados informais que hoje sufocam as ruas, e viraram as costas aos bairros periféricos onde falta tudo: água, luz, escolas, hospitais, segurança.

Com todas as suas limitações e inimigos dentro e fora, Amurane tentou. Tentou enfrentar interesses instalados, tentou acabar com os “donos” da cidade. Foi criticado, ameaçado, isolado. Acabou assassinado num crime que até hoje continua sem respostas. Mataram-lhe o corpo, mas também tentaram matar a ideia de que é possível governar com seriedade.

Depois dele, voltámos à mesma dança de promessas e desculpas. Passámos por Paulo Vahanle, que soube aproveitar o nome de Amurane para se eleger, mas que nos seus mandatos deixou a cidade quase no mesmo ponto, senão pior. E agora temos Luís Giquira, que ainda está a dar os primeiros passos, onde até agora esta mostrar grandes sinais de ruptura com o passado.

E o povo? Continuamos a vender o nosso voto por camisetes e cervejas. Continuamos a bater palmas aos ladrões, só porque são “do nosso partido”. Continuamos calados diante das injustiças, com medo ou com preguiça. E quando a cidade afunda, culpamos Deus.

A cidade não precisa só de líderes honestos. Precisa também de cidadãos atentos, exigentes, organizados. Precisamos de nos levantar quando o vizinho é injustiçado, quando a criança não tem escola, quando o hospital não tem remédios. Nampula precisa de um povo que não tenha medo.

Claro que há! Mas exige coragem. Exige planeamento sério, liderança com visão, combate cerrado à corrupção, e sobretudo, vontade política de tratar a cidade como um lar e não como uma fonte de negócios. Precisamos de resgatar os espaços públicos, pôr ordem no crescimento urbano, reabilitar as vias, devolver a dignidade aos bairros esquecidos.

E isso começa por dizer as verdades todas: que a cidade está mal, que os líderes falharam, que nós também falhámos.

Nampula, a cidade que prometia tanto, parece hoje uma senhora cansada, maltratada, cheia de feridas. Mas ainda vive. Ainda respira. E enquanto houver quem sonhe, quem escreva, quem denuncie, quem lute, ainda há esperança.

69 anos depois… E nós? O que fizemos dela? A resposta ainda pode mudar. Mas só se tivermos coragem de parar de aplaudir os culpados e começar a exigir os responsáveis.

 

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