OPINIÃO
Será que o distrito de Chinde foi esquecido do mapa?
No coração do delta do Zambeze, onde o rio se encontra com o mar, existe um pedaço de Moçambique que parece ter sido esquecido com o tempo: o distrito de Chinde. Localizado a sul da província da Zambézia, entre o majestoso rio Zambeze e o Oceano Índico, Chinde já foi, historicamente, a primeira capital da Zambézia. Hoje, com pouco mais de 85 mil habitantes, vive uma realidade dura e isolada, marcada por promessas esquecidas, abandono estrutural e lutas diárias pela sobrevivência.
Chinde é terra de gente humilde e trabalhadora. O seu povo sobrevive maioritariamente da pesca e da agricultura, resistindo com coragem à erosão que já há anos devora a costa do distrito, principalmente nos bairros da Liberdade e Amarelo. A língua predominante é o Maindo, seguida pelo Sena. Recentemente, há também presença de falantes de Lomwé, vindos do distrito de Pebane – os chamados “Mapex” – que se estabeleceram na região para a prática da pesca.
Mas chegar a Chinde é, por si só, um desafio.
O distrito encontra-se praticamente isolado do resto da província. Só se chega por via fluvial, e o trajecto de barco até Marromeu ou Quelimane, pode durar mais de nove horas, em condições desumanas: partilhando espaço com peixe seco, motorizadas e mercadorias. Os barcos enviados pelo governo são geralmente de segunda ou terceira mão, com pouca durabilidade. O batelão que fazia a ligação entre Chacuma (Chinde) e Nhacatiua (Luabo) raramente funciona – e, quando o faz, é quase sempre por causa de visitas oficiais.
A indignação dos chindenses cresce a cada ano. A população há muito clama pela construção de uma ponte que ligue Chinde a Luabo, o que facilitaria o escoamento do arroz e marisco produzidos localmente e conectaria o distrito ao resto da província e do país. Mas as respostas não chegam. Os administradores entram, mas saem deixando os mesmos problemas ou ainda pior: bolsos cheios e promessas vazias.
A pobreza no distrito é profunda. O custo de vida é altíssimo, e as oportunidades são escassas. Por isso, muitos jovens emigram para outras cidades como Beira, Quelimane ou Maputo em busca de melhores condições. Alguns poucos conseguiram formar-se nas áreas da saúde, educação ou integrar as Forças Armadas. Mas, para a maioria, resta o esquecimento.
Chinde corre risco de desaparecer, lentamente, diante dos nossos olhos. A erosão está a avançar, e sem investimento real em infraestruturas e políticas públicas inclusivas, a vila poderá ser mais uma memória perdida nas margens do Zambeze.
Chinde não pode continuar esquecido. É preciso olhar com seriedade para este distrito que tanto deu e que ainda tem muito para oferecer. O povo de Chinde merece mais. Moçambique não pode permitir que um pedaço da sua história e cultura afunde em silêncio.
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