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OPINIÃO

NA memória de África e do Mundo

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Já celebrámos meio século de independência política, como nação. Já pisamos o primeiro degrau do novo ciclo, outro meio século por diante. E, nesta encruzilhada de história, mais do que discursos, talvez o que se imponha seja silêncio e escuta. Escuta do que fomos, do que somos e do que ainda podemos ser. E que melhor espelho do que o nosso próprio hino? “Pátria Amada”. Não como ritual vazio, mas como um corpo vivo de palavras que continuam a perguntar por nós. Vamos, então, meditar juntos. Verso a verso, gesto a gesto, memória a memória.

Nos corredores fundidos da história e na alma de um povo que não se dobra, mesmo com o lombo já vergado por tanta injustiça, ergue-se um canto que é mais do que melodia: é cicatriz e promessa, é aviso e farol. O hino nacional não é peça de protocolo. É reza laica, testamento colectivo. Um país inteiro fala ali, mesmo os que já não podem falar. Mesmo os que foram calados ou esquecidos. E quando se canta, não se canta só com a voz: canta-se com tudo que já se chorou, com tudo que já se aguentou. Porque este canto vem de fundo. Não nasceu num estúdio, nasceu nas matas. Nas trincheiras. Nas palhotas onde a esperança se cozia com milho e silêncio.

Na memória de África e do mundo, belo hino de combate ergue-se. África lembra. O mundo talvez nem sempre. Mas nós temos o dever de lembrar. Porque essa memória não é só bandeira hasteada, é dívida. É raiz. Não se trata de saudosismo, trata-se de consciência. Moçambique nasceu da luta, não do acaso. E África guardou esse nascimento como quem segura um tambor com história. O mundo, esse mundo que nos analisa de longe, precisa saber que não somos fado de estatísticas, mas sim povo que canta mesmo com os joelhos feridos. E se cantamos, não é porque a dor passou. É porque acreditamos que ela não nos define.

A pátria amada canta a glória do passado, a glória do passado. A repetição, aqui, não é erro, é insistência, quase grito. Que glória é essa, afinal, que ainda nos emociona? É a da mulher que partilhou a última mandioca com o guerrilheiro. É do jovem que trocou futuro pela revolução. Mas cuidado: não se pode viver só de passado. Há glórias que, se não forem regadas com presente, secam. E o que vemos hoje? A glória transformada em slogan? O espírito de sacrifício virou currículo político? Não podemos permitir que os nomes dos heróis sirvam apenas para inaugurar avenidas. Têm de servir para guiar decisões.

Quando o hino diz que os heróis moçambicanos, do Rovuma ao Maputo, do Índico ao Zumbo, ergueram-se como um só povo, está a desenhar uma geografia de valentia. Uma nação inteira a empurrar contra a máquina colonial. Mas o tempo passou, e a unidade que ali se cantava, agora está fragmentada. Temos muros onde deviam existir pontes. Tribo, cor, partido, língua, província — tudo isso transformado em trincheira. E a liberdade pela qual se lutou? Ainda não chegou para todos. Há quem viva como se nunca tivesse havido independência. A democracia precisa descer do papel e andar descalça, sentir o pó do povo.

E se “todos por um, desafiando canhões” é verso que arrepia, também é interrogação: quem é esse “um” hoje? É o país inteiro ou um punhado de interesses privados? Há quem use a retórica da unidade para controlar, silenciar, reprimir. E, no entanto, o povo continua a lutar, desta vez contra outros canhões: canhões invisíveis feitos de promessas não cumpridas, de orçamentos desviados, de escolas sem cadernos e hospitais sem soro. É uma guerra sem tiros, mas que mata devagar.

Viva, viva Moçambique, nossa terra gloriosa! Grito bonito, mas que exige verdade. A terra pode ser gloriosa, mas está ferida. Tem buracos nas estradas, nas contas públicas e no coração dos que se sentem abandonados. Cada dia, centenas de filhos da pátria abandonam a pátria para procurar pão noutro lado. Fogem, não por falta de amor, mas por cansaço. E o que é um país senão o lugar onde se pode viver com dignidade? Amar um país é querer ficar. É sentir que se tem futuro ali. Um “viva” não enche barriga. Precisa vir com dignidade dentro.

A bandeira erguida com o suor dos heróis brilha gloriosamente nas mãos do povo. A imagem é linda, sim. Mas vamos olhar bem: essa bandeira, está mesmo nas mãos do povo? Ou está nas mãos dos que mandam sem ouvir, dos que vivem bem com o sacrifício dos outros? O povo tem mãos, sim, mas muitas vezes vazias. Sem terra, sem casa, sem voz. O suor dos heróis merece mais do que cerimónia anual. Merece continuidade, merece serviço público decente, merece escuta verdadeira. Segurar a bandeira é responsabilidade, não privilégio.

E quando o hino diz que o povo unido do Rovuma ao Maputo nunca tema lutar contra as armas do inimigo, é aí que se torna mais actual do que nunca. Porque o inimigo mudou de cara. Já não vem de farda e bota. Vem de gravata. Mora nos gabinetes, nas decisões injustas, nas exclusões subtis. É o inimigo que mente nos relatórios, que rouba no silêncio, que sorri para fora e destrói por dentro. É por isso que o hino precisa sair das folhas de papel e entrar nas conversas reais. Precisa ser vivido. Não só cantado.

No fim, o hino não é passado nem enfeite. É exigência. É cobrança. É uma carta viva que nos foi deixada, e que não podemos ignorar. Porque uma pátria não se herda, constrói-se. E constrói-se todos os dias. Não com discursos, mas com justiça. Não com promessas, mas com verdade. E essa verdade só se encontra quando olhamos o povo no rosto e reconhecemos a sua dor, sua luta, seu valor.

Se vamos mesmo erguer mais cinquenta anos de história, que seja com consciência limpa e compromisso firme. Que “Pátria Amada” não seja apenas canto de cerimónia, mas prática de cidadania. Que cada verso nos lembre que esta terra ainda pode ser casa para todos, se tivermos coragem de a tratar com amor exigente. E que nunca esqueçamos: um país não se governa com frases feitas. Governa-se com escuta, com justiça, com humanidade.

Então, sim, podemos seguir juntos. Mas só se estivermos dispostos a fazer do hino não uma decoração, mas um caminho. Pedra a pedra. Sem esquecer ninguém. Sem deixar ninguém para trás. E mais não disse!

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