OPINIÃO
Mendigos da Beleza
Hoje em dia, em cada canto da cidade de Nampula, nota-se uma corrida atrevida por algo que muitos já consideram mais importante que a educação, que o carácter e até que a dignidade: a beleza fabricada. Acordamos todos os dias com as ruas cheias de mulheres e raparigas a caminho do trabalho, da escola ou simplesmente do mercado. Mas o que impressiona e por vezes assusta é o esforço exagerado que muitas fazem para parecerem bonitas aos olhos dos outros com uma beleza que não é natural, não vem do cuidado interior, mas sim daquilo que se cola ao rosto, se pinta nos lábios, se enfia na cabeça e se veste no corpo para parecer alguém que nunca se foi. A cidade anda cheia de gente a mendigar beleza como se essa fosse a única passagem para uma vida digna. Mas o que mais dói não é ver esse desespero todo; o que dói é ver que essa beleza virou um objectivo de vida.
É comum agora andar pelas ruas da cidade e reparar que as raparigas já não se preocupam em cuidar da inteligência, em aprender algo útil, em ler um livro ou lutar por um espaço com mérito. Preocupam-se, isso sim, em como ficar mais claras, como ter um cabelo mais liso, como aumentar o rabo ou os seios, como falar com um sotaque importado das novelas brasileiras, mesmo que não percebam nada do que estão a dizer. Entrar numa loja, num escritório, ou até num banco tornou-se um momento de observação e choque. Já não se sabe se está num local de atendimento ao público ou num concurso de moda mal ensaiado. Mulheres e moças com a cara completamente coberta de pó, com pestanas tão grandes que mal conseguem abrir os olhos, com lábios tão pintados que têm medo de sorrir. Algumas, para não estragarem o batom, nem querem falar. Limitam-se a usar as fossas nasais, como se o português agora saísse pelo nariz.
Lembro-me de um dia ter entrado num dos bancos aqui no centro de Nampula. Queria apenas tratar de um levantamento. Fiquei uns minutos sentado à espera da minha vez e observei com atenção. Parecia que o critério para contratar as funcionárias era a cor da pele e a quantidade de pó no rosto. Não vi nenhuma com cabelo natural, nenhuma com pele escura ao natural, nenhuma com simplicidade. Pareciam bonecas de montra. Estavam todas perfeitamente montadas, com um ar de quem saiu de um salão de beleza e não de uma escola de formação profissional. Mas bastou o ar condicionado falhar por alguns minutos e todo o cenário começou a desabar. O brilho desapareceu, a maquilhagem começou a escorrer, o rosto derreteu como vela ao calor. O lenço não ajudava, os dedos não sabiam o que limpar primeiro e a vergonha foi visível até para quem estava do outro lado do balcão.
Mas a coisa não acaba por aí. A obsessão pela beleza não é só nas funcionárias dos bancos ou das lojas de roupas. Vai ao mercados, passa pelas Paragens de chapa, anda pelo Mutauanha ou entra nos bairros de Napipine e Muahivire. Vais encontrar vendedoras de cebola e tomate com perucas que custam mais do que o lucro diário, com unhas postiças compridas que nem conseguem contar troco, com pestanas falsas que lhes pesam os olhos. Umas até vendem peixe, mas não suportam o cheiro do peixe, porque acham que isso estraga o perfume sul africano que compraram. Vivem uma vida de mentira, tentando parecer o que não são, numa guerra invisível com elas mesmas.
É um mendigar constante. Um pedir esmola de beleza. E é essa a maior pobreza. Porque há quem viva com pouco, mas viva com dignidade. E há quem tenha tudo, mas viva como escravo da vaidade. A vaidade, quando não é equilibrada, vira prisão. E essa prisão é bem visível nas redes sociais. Basta ver o que se publica: fotos de corpos montados, caras transformadas por filtros, bocas forçadas a sorrir, legendas que fingem felicidade. E por detrás daquilo tudo, há solidão, baixa autoestima, e uma enorme vontade de ser notado.
Conheci uma jovem aqui mesmo em Nampula, na zona do Namutequeliua. Era bonita, com rosto limpo, cabelo natural e um sorriso que iluminava até a noite. Mas bastou ouvir comentários maldosos sobre a sua pele escura para cair no erro de querer clarear. Começou a usar cremes estranhos, vendidos em cantos escuros da cidade, sem saber a composição nem as consequências. No início até parecia estar a ficar “mais bonita”, como diziam. Mas depois a pele começou a reagir. Manchas surgiram, feridas abriram, o brilho desapareceu. Agora vive escondida. Usa camisolas de manga comprida mesmo com calor, veste calças largas para tapar o que pode. A beleza que tinha foi trocada por vergonha. E tudo por quê? Porque o mundo lhe disse que o natural não era suficiente.
A juventude está a perder-se. Já não se fala da beleza de saber ler, de saber tratar bem as pessoas, de saber respeitar os mais velhos. Já não se valoriza a beleza da simplicidade, do esforço, da honestidade. Agora o que vale é parecer. É mostrar. É brilhar mesmo que por dentro se esteja vazio. Os homens também não escapam. Muitos já gastam mais tempo em frente ao espelho do que no emprego. Já não se sabe se estão a pentear-se ou a preparar-se para um desfile de vaidade. Gel no cabelo, camisas justas, calças a apertar tudo, perfume de marca, mas o bolso vazio e a cabeça também. São mendigos da mesma beleza fútil, só que com outra embalagem.
Estamos a criar uma geração fraca, sem base, sem identidade. Uma geração que prefere parecer do que ser. Uma juventude que está a ser ensinada a competir em beleza e não em inteligência. E o futuro de um país assim, que valoriza o que brilha por fora e ignora o que importa por dentro, é um futuro condenado. Temos que parar de mendigar beleza. Temos que voltar a procurar conhecimento, carácter, verdade. A verdadeira beleza está na honestidade de uma mulher que acorda cedo para sustentar os seus filhos com dignidade. Está no jovem que se orgulha da sua pele, do seu cabelo, do seu sotaque. Está na avó que ainda penteia a neta com paciência e amor, ensinando que o que vem de casa é sempre mais forte do que o que vem da rua.
Não é crime querer ser bonito. Mas é um erro esquecer quem somos para tentar ser o que os outros querem. Que a beleza nunca seja uma prisão. Que as mulheres de Nampula entendam que a sua força está muito além da cor da pele, do tamanho do rabo ou do tipo de cabelo. Está no coração, na inteligência, na coragem, na luta diária. E que os homens saibam valorizar o que é verdadeiro, e não apenas o que reluz. Porque o que reluz, com o tempo, derrete. Mas o que é verdadeiro, permanece.
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