CULTURA
“Mataram o Nosso Chefe”: violência política e crítica social num retrato com humor e memória
É um verdadeiro filme de ficção transformado em literatura crítica. “Mataram o Nosso Chefe”, novo livro do escritor e matemático Victorino Ubisse Oliveira, foi recentemente lançado na cidade de Nampula, e já se impõe como uma obra marcante sobre as feridas mal saradas da sociedade moçambicana no período pós-independência. Com oito contos curtos e incisivos, a obra percorre os corredores da política, das famílias, das religiões e das instituições para expor, com humor e ironia, as dores da liderança e da subalternidade.
Victorino Ubisse recorre a uma escrita acessível e provocadora, combinando crítica social com episódios ficcionais que remetem ao colapso da autoridade e à degradação moral de líderes – sejam eles chefes de ministérios, empresas ou famílias.
“Nestes oito contos, procuro mostrar como os chefes – não só de grandes empresas e ministérios, mas também de famílias – perdem a compostura, a personalidade e a moral. Demonstro que, muitas vezes, isso ocorre por culpa própria, mas também devido às armadilhas da vida”, explica o autor.
A “morte” dos chefes no livro é mais do que um fim físico. É uma morte simbólica e social: figuras de poder que caem em desgraça, perdem a dignidade ou sucumbem aos jogos do sistema.
“Pretendo, com esta obra, alertar a sociedade para não ‘matar os nossos chefes’ e, ao mesmo tempo, lembrar que eles próprios não devem permitir-se morrer”, acrescenta Ubisse.
Depois de se estrear com “Há Exorcismos em Jofane” em 2023 – obra que mereceu tradução para o espanhol no Chile – Victorino Ubisse confirma agora que sua voz veio para ficar no universo literário moçambicano.
“Faço parte de uma geração que cresceu a ler. Não tínhamos tantas distrações como hoje. Achei que era o momento certo para retirar do baú o que guardei durante tanto tempo. E continuarei a escrever obras de crítica social, porque, enquanto a nossa sociedade não estiver completamente alinhada, continuarei a criticar.”
Matemático de formação, o autor afirma aplicar princípios da sua área à literatura, usando a lógica para construir narrativas que espelham realidades desconcertantes. E é justamente dessa matemática emocional que surgem personagens tão próximas quanto absurdas, num Moçambique onde o humor é, muitas vezes, o último refúgio contra a desilusão.
O editor Jeconias Mucumbe, responsável pelas duas obras de Ubisse através da Massinhane Edições, sublinha a importância de acolher vozes novas e descentralizar o mapa literário nacional.
“Sentimos a necessidade de democratizar as publicações para as províncias, ao percebermos a ausência das editoras tradicionais no acolhimento de novas vozes literárias com qualidade. Trabalhar com Ubisse dá-me a sensação de estar a lançar uma voz promissora e necessária – talvez a representar a próxima geração da literatura moçambicana.”
“Mataram o Nosso Chefe” é mais do que uma crítica ao poder: é uma chamada de atenção à sociedade que permite ou silencia essas mortes simbólicas. É também uma declaração sobre o lugar da escrita como ferramenta de combate, consciência e humor. Daniela Caetano
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