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CULTURA

“Ajudem-me agora, não depois da morte”: Warila denuncia abandono e recusa homenagens póstumas

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Doente, imobilizado e esquecido. Assim vive hoje Constantino Warila, ícone da música tradicional moçambicana, num recanto esquecido do bairro de Napipine, em Nampula. Conhecido no meio artístico como Professor Warila, o músico encontra-se sem conseguir locomover-se, impossibilitado de cantar e completamente isolado.

Num apelo comovente, Warila implora por ajuda enquanto ainda tem forças para falar:

“Não quero flores no meu funeral. Quero dignidade enquanto vivo. Se querem apoiar, que o façam agora. Não depois da morte, como fizeram com Zena Abacar e Rei Costa.”

A voz que já emocionou multidões está hoje fraca, mas a lucidez permanece intacta. Warila sente-se traído por colegas, ignorado pelas instituições culturais e esquecido por um público que já o ovacionou.

“Cantei para alegrar este povo. Traduzi discursos de presidentes. Mas hoje ninguém me procura. Nem a Direcção da Cultura, nem os meus colegas. Estou enterrado vivo.”

Com amargura, recorda o fim solitário de outros artistas:

“Zena Abacar, Rei Costa,… Todos morreram abandonados. Depois apareceram homenagens, poemas e palmas. Eu não quero isso. Quero uma cama limpa, um médico, alguém que me visite.”

A casa onde vive é inóspita. O acesso é quase impossível e nem serviços de emergência conseguiriam chegar com facilidade.

“Aqui nem carro entra. Até passar carvão é difícil. O bombeiro nem conseguiria socorrer alguém. É assim que tratam quem ergueu a cultura deste povo?”

Entre os lamentos, sobra indignação com o estado actual da música em Nampula.

“Hoje fazem canções juriosas, cheias de insultos. Já não é música, é escândalo. Um pai não pode escutar isso com os filhos. Estão a destruir o que construímos.”

Em 2024, Warila foi homenageado pelo antigo Presidente Armando Guebuza com uma viatura, após uma actuação especial. Mas o reconhecimento teve um fim trágico.

“Fui enganado por um motorista em quem confiei. Perdi o carro. Fiquei sem transporte, sem socorro, sem lenha, sem pão.”

Sem medicamentos, sem visitas e sem apoio, Warila deixa uma súplica à Direcção Provincial da Cultura, ao Conselho Municipal, à ONP e à sociedade:

“Não me tragam discursos depois da morte. Tragam respeito agora. Ainda estou aqui. Ainda respiro. E ainda sonho com dignidade.” Redacção

 

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