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SOCIEDADE

Jovens em Nampula defendem autoemprego como resposta à exclusão laboral

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Jovens da província de Nampula aproveitaram as celebrações do Dia Internacional do Trabalhador para partilhar frustrações e propor caminhos alternativos face à exclusão do mercado formal. Entre as críticas, destacam-se o favoritismo institucional, a precariedade das oportunidades de emprego e a ausência de políticas públicas eficazes voltadas à juventude.

Num país onde mais de metade da população é jovem, falar de emprego é, inevitavelmente, falar dos desafios que este grupo enfrenta. Em entrevistas realizadas em vários pontos da cidade de Nampula, muitos jovens demonstraram desilusão com a falta de perspectivas profissionais, apostando no autoemprego como alternativa viável.

Helder Adolfo Piomo, mecânico na empresa MD Consultores, acredita no valor do ensino técnico. “Hoje em dia, vale mais apostar nos cursos profissionais. Mesmo assim, não basta ter formação: o estágio é essencial para ganhar experiência. Passei por várias empresas antes de ser contratado, e isso construiu o meu perfil”, explicou. Para ele, muitos jovens erram ao priorizar o salário imediato em vez da aprendizagem. “Mais vale fazer um estágio não remunerado do que ficar parado.”

No entanto, o mérito nem sempre é suficiente. Uneisa Ussene, estudante de medicina, reconhece que o acesso ao emprego, em muitos casos, depende de relações familiares. “O meu pai é fisioterapeuta em três hospitais. Quando eu terminar a faculdade, ele vai me ajudar a conseguir vaga. Muitos colegas só conseguiram emprego por terem conhecidos nas instituições. Isso é uma realidade.”

Essa realidade de “quem indica” revolta jovens sem redes de apoio. É o caso de Antonio Felisberto, de 19 anos, vendedor de doces. “Trabalho desde os 14 anos para me sustentar. Muitas vezes não consigo estudar. Sonho em trabalhar nas alfândegas e estou a estudar para isso. Enquanto isso, sobrevivo com o que vendo.” Para ele, a falta de oportunidades empurra muitos jovens para o crime e as drogas. “Mas eu não quero isso para mim.”

Outros jovens decidiram empreender, como Albano Pinto, que abriu uma loja de venda de telemóveis. “O mercado de emprego é muito estreito. Decidi criar o meu negócio, mas só o alvará custou mais do que o que eu tinha. O Estado devia facilitar quem quer trabalhar por conta própria.” A sua experiência expõe um problema recorrente: o peso da burocracia e dos custos na formalização de pequenos negócios.

Para Assane Armando, professor na Escola Secundária 25 de Junho, o desafio exige mudança de mentalidade. “Os jovens devem estudar e qualificar-se, sim. Mas também é preciso que o governo abra mais postos de trabalho e incentive o empreendedorismo. O emprego não está só no Estado, está também na criatividade, na iniciativa privada, no trabalho por conta própria.”

Ivo Ali concorda. Só conseguiu emprego graças a uma indicação, após anos de tentativas frustradas. “Há pouca oportunidade. Os jovens deviam aprender ofícios como carpintaria ou electricidade. São áreas com mais saída, e podem ser uma alternativa enquanto se luta por vagas no Estado.”

Apesar das críticas, há sinais de resposta institucional. O relatório dos primeiros 100 dias do governo de Daniel Chapo menciona a inauguração dos Centros de Emprego de Angoche (Nampula) e Mocuba (Zambézia), além da construção de um novo Centro de Formação Profissional em Chimoio (Manica), todos voltados à qualificação da juventude.

O governo indica também o apoio recente a 998 pensionistas e 1.681 trabalhadores por conta própria, além da digitalização dos serviços do Instituto Nacional de Acção Social, como parte dos esforços para melhorar a assistência aos mais vulneráveis.

No entanto, para muitos jovens em Nampula, essas acções ainda não chegam com a rapidez e a escala necessárias. O sentimento é de que, enquanto o sistema formal continuar inacessível, resta a luta solitária por sustento — ou o caminho do autoemprego, como resposta à exclusão institucional. Daniela Caetano

 

 

 

 

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