SOCIEDADE
“Filmaram-me nu e disseram: estamos a educar este jovem inteligente”, Benny Clor
O jovem músico e activista moçambicano Benedito Manuel, conhecido por “Filmaram-me nu e disseram: estamos a educar este jovem inteligente”, foi sequestrado a 21 de Julho de 2025, no distrito de Monapo, província de Nampula, quando viajava para Nacala, onde trabalha. Foi libertado apenas na noite de 23 de Julho, após dois dias de tortura física, psicológica e privação de alimentos, tendo sido encontrado no distrito de Ribáuè, também na província de Nampula.
Durante o cativeiro, os raptores, três homens armados, filmaram-no nu e partilharam o vídeo com a sua noiva e nas redes sociais, numa tentativa clara de humilhá-lo e silenciar a sua música de intervenção. Nesta entrevista exclusiva ao Jornal Rigor, Benny reconstrói os momentos de terror que viveu e reafirma a sua missão artística e social: “Não penso em desistir.”
Com o cabelo cortado à força, numa alegada “lição” simbólica imposta pelos raptores, Benny conta que eles justificaram o gesto como o início de um novo capítulo da sua vida, agora “sem cabelo”. A seguir, trechos da entrevista conduzida por Faizal Raimo:
Jornal Rigor (JR): Como começou o sequestro?
Benny Clor: Tinha apanhado boleia com um jovem que conheci na praia em Nacala. No início parecia normal — ofereceu-me refresco, conversámos… Duas semanas depois, disse que ia a Nampula e podia levar-me. Combinámos no terminal dos CFM, às 5 da manhã de segunda-feira (21 de Julho). Quando entrei no carro, já estavam quatro pessoas — duas à frente, duas atrás. Muito calados. Pareciam suspeitos.
JR: O que aconteceu a seguir?
Benny Clor: Parámos em Namialo. Ele saiu e deixou-me no carro quase uma hora. Voltou com uma Coca-Cola. Tomei. Seguimos viagem. Mas, já em Nacololo, perto do Instituto de Formação de Professores, apaguei. Só voltei a mim na quarta-feira (23), dentro de uma casa de banho apertada, em Ribáuè. Tinham-me tirado do porta-malas. Estava com capucho. Foi aí que começou o terror.
JR: O que fizeram contigo?
Benny Clor: Despiram-me. Levaram todos os meus pertences. Antes disso, filmaram-me e tiraram fotos. Disseram: “Falas de assuntos que não te dizem respeito. És uma criança a mexer com gente grande. Hoje tens sorte. Podia ser pior.” Depois cobriram-me de novo e levaram-me de volta ao carro.
JR: Recebeste comida ou água durante o cativeiro?
Benny Clor: Não. Dois dias inteiros sem comer nem beber. Foi uma tortura brutal. Fiquei sempre no porta-malas.
JR: Eles diziam o que pretendiam?
Benny Clor: Ouvi um deles ao telefone: “Vamos para a cidade ou esperamos aqui?” Outro respondeu: “Estão a demorar. Não dá para ficar aqui muito tempo.” Depois arrancaram e deixaram-me em Ribáuè, já eram 21 horas. Atiraram-me ao chão, levaram os meus cartões e deixaram-me só com a calça.
JR: Reconheceu algum dos raptores?
Benny Clor: Não. Estavam todos de capucho. Dois tinham pistolas. Um deles usava spray. Pareciam profissionais. Um conhecia detalhes da minha vida: nome da minha noiva, da minha mãe, onde moro…
JR: Fale-nos sobre o vídeo que partilharam?
Benny Clor: Filmado nu, humilhado. Disseram: “Moçambique tem os verdadeiros donos. Quando alguém se mete onde não deve, paga com o corpo. Estamos a educar este jovem inteligente. Cortámos-lhe o cabelo e a barba como sinal de novo começo.” Mandaram para a minha noiva, para a minha página do Facebook e para outras pessoas. Foi chantagem clara.
JR: Disseste que não vais desistir. Por quê?
Benny Clor: Porque o país é de todos nós. Tenho o direito de pensar diferente. Já fui ameaçado antes. Não há revolução sem sangue. A minha voz é o que eu tenho.
JR: As tuas músicas provocaram esse ataque?
Benny Clor: Sim. Sobretudo as músicas “Eleições Presidenciais”, “Vão-te Mentir de Novo”, “Eu Sou do Povo, Não sou da Frelimo” e a participação com Venâncio Mondlane numa música sobre Cabo Delgado. Quando ele partilhou, tudo escalou. A visibilidade aumentou e começaram as ameaças.
JR: E agora?
Benny Clor: Continuar. Denunciar. Este tipo de intimidação tem de ser combatido com coragem. O medo não pode vencer.
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