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OPINIÃO

Estamos numa República democrática ou no quintal da sograria?

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A Constituição da República de Moçambique, no seu artigo 1.º, declara com toda a solenidade: “Moçambique é uma República soberana, independente, democrática e de justiça social.” Mas ao olharmos para a realidade concreta do país, a pergunta que se impõe, é: estamos mesmo numa república democrática ou num quintal herdado, onde só mandam os de sempre?

Já não sabemos se estamos numa república ou numa casa de família. Parece que Moçambique virou mesmo o quintal da sograria. Aqui, só quem tem ligação com os chefes é que come bem, vive bem, anda de carro com ar-condicionado e viaja para o estrangeiro como se fosse ao mercado comprar tomate. E nós, os outros ficamos sempre a ver, com o prato vazio e o futuro encoberto por promessas.

O que está a acontecer em Moçambique é nojento. Os que estão no poder tratam o Estado como propriedade de família. Empregam os filhos, os primos, os sobrinhos, as esposas e até os amigos dos filhos. São sempre os mesmos nomes a circular em todas as instituições públicas, como se mais ninguém neste país tivesse capacidade. Quem não é parente ou camarada do partido, nem sonhar pode. Mesmo que tenha diploma, experiência ou competência. Aqui não se vive por mérito. Vive-se por quem se conhece. A corrupção virou sistema. O favoritismo virou regra. E o povo, coitado, virou apenas figurante neste teatro triste que chamam de governação.

O mais revoltante é que, mesmo estando cercados de oportunidades e dinheiro, esses senhores nunca pensam no bem do povo. Usam os recursos públicos para enriquecerem, para acumularem fortunas obscenas, para construírem mansões, para comprarem jipes de milhões, enquanto a maioria da população dorme no chão, com fome e sem esperança. Vão tratar-se na África do Sul, enquanto os nossos hospitais estão sem medicamentos nem camas. Mandam os filhos estudar na Europa, enquanto as nossas escolas têm buracos nas paredes, sem livros, sem carteiras e com professores mal pagos. Falam de patriotismo, mas vivem como reis estrangeiros num país que eles próprios afundam todos os dias.

E quando falamos de negócios públicos, Eeeeeeeeeeeeeee. Os contratos do Estado são sempre entregues às mesmas empresas. Empresas que já nasceram com o nome abençoado por alguém no topo. Não importa se existem outras com mais capacidade. Não importa se há jovens empreendedores a tentar vingar. Não importa se há gente honesta e competente que também quer participar na reconstrução do país. Nada disso conta. O que conta é quem está por trás da empresa. E os que estão por trás são sempre os mesmos: filhos de ministros, esposas de generais, irmãos de deputados, compadres de governadores, sócios de ex-presidentes. É tudo uma teia de famílias que se alimentam do Estado como hienas em torno de um cadáver.

E os nomes… Ah, os nomes são quase sempre os mesmos. Mudam só a sigla ou criam ligação com outro nome fantasma. Mas quando se vai fundo, os donos têm os mesmos apelidos dos que discursam nas inaugurações. Coincidência?

Mas como é que uma empresa recém-criada, sem histórico visível de experiência, ganha um contrato de milhões de meticais no mesmo mês em que foi registada? E como explicar que uma gráfica que nunca imprimiu um panfleto escolar passe a imprimir cadernos ou livros para todo o país?

Se tentarmos ir a fundo, descobrimos que por trás dessas empresas estão nomes de chefes grandes, gente ligada ao partido que sempre esteve no poder. Gente que nunca passou fome, nunca sentiu o que é viver sem luz, nunca precisou de fazer fila no hospital, mas que diz saber o que o povo precisa.

E no fim de tudo isto, vem a pergunta que muitos evitam fazer: o que é que o povo realmente ganhou com tudo isso? Ganhou o quê depois de 50 anos de independência? Ganhou miséria, fome, promessas que se repetem como cânticos que se repetem em tempo de eleições.

Dizem que o povo é quem mais ordena. Dizem que somos uma democracia. Mas em que momento o povo tem mandado alguma coisa? Só serve para dar voto. E mesmo esse voto é manipulado, comprado, ameaçado ou desviado. Terminam as eleições e os eleitos somem. Voltam aos carros blindados, às casas com muros altos, ao silêncio arrogante. O povo que votou? Que espere mais cinco anos para ouvir outra vez o mesmo discurso.

Estamos mesmo no quintal da sograria. Aqui só os da casa mandam. Só os da linhagem comem. Só os da foto do partido vivem bem. Os outros vivem com o sofrimento cravado no corpo, com os pés feridos de tanto caminhar em busca de nada. O povo trabalha, mas quem colhe é sempre o outro. A riqueza de Moçambique está a servir famílias, não está a servir o povo. Está a fortalecer um grupo pequeno, fechado e perigoso, que controla tudo: o poder político, a economia, os tribunais, a imprensa e até as igrejas.

Mas não pensem que isso vai durar para sempre. Porque o povo pode estar calado, mas não está morto. A paciência tem limites. A injustiça tem um prazo. E quando o povo despertar de verdade, quando o medo for substituído pela coragem, quando a fome se transformar em raiva, o quintal da sograria vai pegar fogo. E aí, não haverá polícia, nem segurança, nem muro alto que proteja quem hoje se acha intocável.

Porque a verdade, meus irmãos, é que o povo está farto. Farto de fingir que acredita. Farto de aplaudir quem não merece. Farto de votar por desespero. Farto de viver de joelhos. Moçambique não é casa de ninguém. Moçambique é de todos. Não pode continuar a ser comandado como se fosse uma herança familiar. Precisamos de justiça, precisamos de verdade, precisamos de uma governação que não tenha medo de servir o povo.

 

 

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