SOCIEDADE
Do símbolo de resistência ao retrato do abandono: Jardim Parque Popular volta a ser lixeira
O Jardim Parque Popular, único espaço verde ainda existente no coração da cidade de Nampula, está a ser gradualmente transformado numa lixeira a céu aberto. A situação agravou-se nas últimas semanas, após a retirada do único contentor de lixo que se encontrava junto ao muro do Hospital Central de Nampula (HCN) — contentor este que servia os trabalhadores do parque e moradores das zonas nobres do bairro Central.
O vazio deixado pela remoção do contentor abriu espaço ao caos: os próprios funcionários municipais, responsáveis pela limpeza, passaram a depositar lixo nos cantos do parque, alegando falta de meios para o transporte dos resíduos. Assim, o local que outrora simbolizava a requalificação urbana e o orgulho municipal hoje emana mau cheiro, atrai moscas e oferece um cenário de abandono aos que ali procuram descanso ou convivência.
“As pessoas já têm autorização para deitar lixo ali, mas não faz sentido acumular lixo dessa forma no maior jardim da cidade”, critica Faustino Cardoso, agente E-mola com banca próxima ao local.
A degradação actual do parque contrasta com a sua história recente. O Jardim Parque Popular foi resgatado por Mahamudo Amurane, o então presidente do Conselho Municipal de Nampula, assassinado em 2017. Quando assumiu o cargo, encontrou o espaço vendido ao empresariado local e prestes a ser transformado num hotel. Em poucos meses, revogou os acordos opacos e devolveu o espaço verde à cidade, convertendo-o num símbolo de resistência urbana e do direito à cidade. No entanto, após a sua morte, o parque mergulhou num ciclo de abandono visível, sobretudo durante os quase dois mandatos de Paulo Vahanle, que liderou o município de 2018 até Fevereiro de 2024.
Actualmente, sem recipientes adequados e sem segurança, trabalhadores municipais admitem não ter alternativa senão acumular o lixo no interior do jardim.
“As nossas carinhas estão danificadas. Nós varremos e deixamos o lixo ali mesmo, até que o município venha buscar. Sabemos que não é o local adequado, mas não temos escolha”, revelou um funcionário sob anonimato.
A insegurança agrava o cenário de abandono. Segundo os trabalhadores, latas de lixo são frequentemente roubadas, muros vandalizados, e até fezes humanas são encontradas no local pela manhã, tornando insustentável o trabalho de limpeza.
“A imagem está péssima, o cheiro é forte, e já não dá para usar os bancos próximos do amontoado de lixo”, descreve Isabel Oliveira, estudante universitária.
Acácio Ernesto, munícipe que costuma almoçar no parque, lamenta: “Se não conseguem levar o lixo até um local apropriado, não resolveram o problema. Nunca vi o parque assim.”
Tanto os utentes como os funcionários da autarquia aí destacados apelam à gestão municipal para que recupere a dignidade do espaço, restabelecendo os pontos de recolha de lixo, reforçando a segurança e garantindo condições básicas para que o Jardim Parque Popular volte a ser um local de lazer e convivência — e deixe de representar o abandono e a negligência com que os espaços públicos têm sido tratados.
Noutras cidades do país, a época chuvosa tem sido historicamente aproveitada para a manutenção e revitalização de jardins e espaços verdes, tirando partido da fertilidade do solo e da abundância de água. No entanto, em Nampula, toda a chuva que caiu foi desperdiçada. O Jardim Parque Popular não recebeu qualquer intervenção significativa durante esse período, tendo sido maltratado pela negligência dos serviços municipais. Actualmente, o espaço encontra-se apenas em pequenas e pontuais reparações, longe de responder às necessidades de conservação e valorização que a população exige. Daniela Caetano
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