OPINIÃO
Angoche e a Gasolina da Humilhação (Parte II)
Do outro lado da cidade, a Mega Fuel Garagem parece ter encontrado outro método. Não necessariamente aumentar o preço. Mas controlar o acesso. Senhas. Limitações. Restrições. Veículos seleccionados. Motociclos seleccionados. Consumidores seleccionados. E quando alguém pergunta por quê?
A resposta chega vazia: “São ordens do patrono.” Ordens. Sempre as ordens. Nunca as explicações. Nunca a transparência. Nunca o interesse público. A mobilidade de um distrito inteiro parece depender da vontade de poucos.
Como se o combustível fosse propriedade privada do humor de quem o vende. Como se o direito de circular tivesse sido transformado em favor. Como se o cidadão tivesse de agradecer por aquilo que paga.
E as Bombas Bamas SU? Essas já carregam uma reputação antiga nas conversas das ruas. Desta vez, segundo relatos populares, optam por outro caminho: simplesmente não vender gasolina, mesmo quando os automobilistas necessitam desesperadamente do produto. Questionados, respondem: Vocês não podem intervir.
Talvez estejam certos. Talvez o cidadão comum não possa. Mas a lei pode. A Procuradoria pode. A ARENE pode. A Inspecção Nacional das Actividades Económicas pode. As autoridades distritais podem. O Estado pode. E deve. Porque quando o combustível entra na lógica da especulação, toda a economia entra em combustão.
Sobe o transporte. Sobe o peixe. Sobe o tomate. Sobe o cimento. Sobe a passagem. Sobe o sofrimento. E quem já era pobre afunda-se ainda mais na pobreza. Entretanto, um novo mercado floresce nas sombras. Gasolina vendida nas ruas. Garrafas. Bidões. Cantos escondidos. Preços exorbitantes. Origens misteriosas. Um comércio paralelo que cresce exactamente onde a fiscalização desaparece.
E aqui nasce a pergunta que ecoa pelas estradas poeirentas de Angoche: De onde vem toda essa gasolina? Quem abastece quem? Quem controla quem? Quem fiscaliza quem? Porque onde existe produto para o mercado informal, dificilmente existe ausência total do produto formal. Há quem esteja a ganhar. E há quem esteja a pagar a conta.
Angoche não precisa de discursos. Precisa de respostas. Não precisa de promessas. Precisa de fiscalização. Não precisa de privilégios. Precisa de justiça económica. Que esta realidade encontre eco no Gabinete do Procurador Distrital de Angoche. Que encontre eco na Autoridade Reguladora de Energia. Que encontre eco nos órgãos de fiscalização. Que encontre eco nos dirigentes provinciais e nacionais.
Porque a gasolina não pode continuar a ser um instrumento de humilhação colectiva. O combustível existe para mover pessoas. Não para travar vidas. Existe para alimentar o desenvolvimento. Não para alimentar a ganância. E enquanto um litro de gasolina continuar a valer mais do que a dignidade do cidadão, Angoche continuará a percorrer uma estrada perigosa.
Uma estrada onde os tanques podem estar cheios. Mas a confiança pública está perigosamente vazia.
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